Esse Rio de amor que se perdeu…

Estou meio confusa…

Claro Rio Summer teve uma repercução contraditória na imprensa nacional, e a internacional, grande foco dos organizadores do evento, mostrou mais a farra promovida do que a moda desfilada. O que se dizia era que queriam mostrar para os gringos o lifestyle brasileiro ou, mais específico, o carioca.

OI?

Se o lifestyle de quem mora no Rio é ficar em festinhas na praia, caipirinha no almoço, hospedar no Fasano lá no Arpoador, ir para shows de mulatas… por que eu saí de lá mesmo?

Fiquei pensando qual era o meu lifestyle no Rio… Eu trabalhava só de 10h às 17h, é verdade. Mas, como a empresa era no Joá, eu não tenho carro e apenas uma linha de ônibus passa lá (sendo que o ponto dela era a 6 quadras da minha casa), eu tinha que pegar o ônibus até no máximo 9h pra chegar lá pontualmente. Isso quer dizer sai de casa às 8h. De tarde, quando eu saía na hora, ficava esperando o ônibus até umas 18h, depois 1 hora de engarrafamento em São Conrado e na Niemeyer, até chegar em Copacabana umas 19h30, e andar as mesmas 6 quadras.

Praia? Só da janela do ônibus, que andava a orla toda. Sempre tinha gente na praia, como também se vê em outras cidades litorâneas. Assim como se vê paulistas no shoppipng em plena segunda. Assim como se vê paulistas em museus em plena terça. Assim como se vê mineiros sentados na praça em plena quarta. Afinal, tem gente que trabalha à noite, tem gente que é estudante, tem gente trabalha na praia, tem gente que tá de férias, tem gente que é turista. Fica a impressão, pra quem mora a muitos quilômetros do mar, que o carioca não faz nada e sempre acha tempo de ir na praia. Será?

Nos finais de semana me divertia como qualquer jovem de classe média, recém-formada, de 23 anos de outras cidades brasileiras, com a diferença que às vezes eu ia à praia com os amigos. Não nasci em cidade litorânea e não sou tão apegada ao mar, mas era um programa legal. O bom da praia no Rio é seu ambiente descontraído, onde se pode ir do jeito que bem entender que ninguém se importa muito. O Rio lança moda na praia porque não está preocupado com moda na hora de ir à praia. Moda na praia pra mim era na hora de escolher os brincos MARAVILHOSOS que eu comprava lá.

Agora vou avaliar o lifestyle da minha irmã, com quem eu morava. Ela acorda todo dia às 5h porque essa é a hora que a minha sobrinha de 1 ano e pouco acorda. Faz mamá, troca fralda e arruma ela pra creche. Meu cunhado acorda, toma banho e, depois que ele sai, ela vai tomar o dela. Faz café e espera a empregada chegar pra poder ir trabalhar, às 8h, em uma clínica. Ela atende até 10h, e vai para o centro, onde trabalha no Inca. Fica no Inca até 17h, volta pra Botafogo para a clínica e atende até às 21h. Chega em casa, ainda tem que cuidar da Fernanda, arrumar a casa, tomar banho, arrumar a marmita e cai desmaiada às 23h. Nos finais de semana ela precisa correr com tudo que não dá tempo de fazer. Só vai no cinema, coisa que a gente costumava fazer sempre, quando vai para Volta Redonda e meus pais ficam com a Fernanda.

Agora o lifestyle da Maria, faxineira lá de casa. Ela não mora no Rio, mora na periferia de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O Garotinho havia prometido enviar verba para calçar o bairro dela, colocar asfalto na rua, mas até hoje o chão é de barro. Pra ela chegar mais rápido no Rio, onde faz faxina, pega um ônibus pirata na Dutra lá pras 5h da manhã. Pega o pior horário de trânsito na Avenida Brasil. De noite, faz o mesmo caminho.

Isso porque eu pulei o draminha violência e mazelas de cidade abandonada, tipo dengue.

Agora, se ainda querem vender a imagem de um país paradisíaco… de uma cidade do oba-oba… Que me incluam nessa, porque eu vim pra SP justamente porque no Rio não tinha uma pós em moda com o nível de excelência da Santa Marcelina nem o mercado de comunicação (não digo nem de moda), que pudesse me incluir e ter uma posição digna.

Apesar de tudo, eu me sentia privilegiada por morar no Rio e do meu lifestyle. Tenho muitas, muitas saudades. Mas não dá.

Antes de se vender pro exterior, Brasil poderia, pelo menos, tentar vender aqui dentro, cuidar do seu mercado de miseráveis que consomem com o pouco que sobra pra supérfluos – e moda não acaba sendo supérfluo (MODA, não roupa)?

Foto tirada no Forte de Copacabana, ali na Colombo, onde foi o Rio Summer. No fundo, Copacabana, meu antigo bairro. Isso foi em uma segunda, se não me engano. Já estava desempregada, arrumando as malas pra SP. Saudade.

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