(des)Centralização da moda

Se Grumbach disse que é o fim da regionalização da moda com os mercados e idéias globalizadas, também é besteira ficarmos discutindo moda paulista, moda carioca, lifestyle carioca, bla bla bla. Mesmo separadas nas duas semanas de moda de maior destaque, a moda brasileira (feita por empresas sediadas no território nacional) é sem fronteiras de estado.

Toda vez que eu pego o 177-P Butatã – USP lotaaaaaaaaaaaado para ir para as aulas da pós, eu penso: “Pqp, por que eu vim pra SP?”. Justamente para fazer a pós e me especializar e acho que na época eu achava que no Rio eu não conseguiria trabalhar com moda. De fato, aqui estou trabalhando na área. Muita gente de SP me mandava vir pra cá, muita gente de lá também e o próprio mercado de jornalismo me empurrava – afinal ele está se esvaziando da antiga capital do país.

Outro dia, troquei alguns emails com a Carla Lemos, do Modices, onde reclamávamos da falta de profissionais de jornalismo de moda qualificados no Rio (particularmente, eu acho que todos nós foquinhas – ou quase todos – somos semi-qualificados). Segundo Carla, e eu concordo, muita gente não sabe nada de nada e acha que trabalhar com moda é ser voguete da Anna Wintour…

Mas Carla resiste em ficar no Rio e o sucesso do Modices é prova de que não precisa inflar o mercado de SP para poder trabalhar com moda, apesar das dificuldades. Em tempos de mundo virtual, o lugar onde se está fisicamente não faz tanta diferença. Outro case de sucesso off-SP é a Pati Lima e sua empresa de comunicação que publica uma das melhores revistas de moda brasileira, a Catarina. Estes dois exemplos me deixam mais animada a não ter apenas SP como opção (vamos combinar, daqui a pouco nem SP está agüentando tanta gente se mudando pra cá pra trabalhar…).

(des)Centralização da moda
Últimos desfiles da Animale, Isabela Capeto, Maria Bonita e Osklen no SPFW ( Fotos: Charles Naseh para Oficina)

Será que a moda do meu estado, o Rio, está tão fora da moda assim? Estava fazendo um balanção sobre o SPFW e reparei que muitas das grifes elogiadas pelos comentaristas de moda nacionais são do Rio. Osklen, Maria Bonita, Animale, Isabela Capeto. E no masculino, temos a Reserva. Elas vieram para a semana de moda paulista por questões mercadológicas, mas suas sedes são na capital fluminense e toda a equipe que realizou o trabalho elogiado está lá. Por isso, quando fico desanimada com o mercado de onde eu vim, lembro que existem empresas de excelência por lá.

Acho esse papo de separar a moda por estados muito chato. Acho também esse papo de que a moda está aqui em SP muito chato. Como meu cliente no trabalho tem mais de 180 lojas no Brasil todo, me informo sobre o jornalismo de moda em outros estados e descubro coisas MUITO legais em Pernambuco, Bahia, Ceará, Amazonas, etc. Cada um escolhe o lugar onde se sente melhor, não é mesmo? Onde tem as ferramentas para conquistar seus objetivos… Não é mesmo, Brasil?

OBS.: Só complementando, recebo muitos emails de pessoas pedindo dicas sobre mudar pra SP e vejo que tem gente completamente perdida e gente com objetivos claros. Como eu sou retirante duas vezes: saí de Volta Redonda para o Rio, e depois para SP – que não é meu destino final, então vou ser retirante de novo, algum dia – digo uma coisa: OBJETIVO. Não adianta mudar radicalmente a vida sem objetivo. Mudar de cidade, mudar para a maior metrópole do país não vai adiantar se você não tiver objetivo. Pode ser que seus objetivos mudem, mas planeje bem e pense BEM, porque mudanças não são fáceis, todo mundo sabe.

E não se mire na história dos outros, cada um tem uma história de vida, uma ideia do que quer fazer, uma personalidade… Trilhe seu próprio caminho, se informe, planeje… Pode ser que dê tudo errado, mas aí foi culpa das circunstâncias. Como diria Raul, “não sei pra onde to indo, mas sei que estou no meu caminho”. Beijosdesliga.

13 opiniões sobre “(des)Centralização da moda”

  1. A gente entrevista com a Isabela Capeto antes do desfile, aqui no atelier dela no Rio para ela nos contar sobre a coleção.
    Durante a gravação a Isabela falou que ela é do Rio, a marca dela é do Rio, os eventos que ela faz são no Rio e ela tem que ir pra São Paulo pra desfilar.
    Então ela disse que nós do Rio precisamos nos unir.
    E não é essa a maior dificuldade? Por que as assessorias que deveriam facilitar e ajudar nosso trabalho continuam só valorizando o que é de São Paulo? Ou as mesmas pessoas de sempre?
    Talvez um problema tão grande quanto a fronteira entre estados seja a fronteira do novo. As pessoas não gostam de novidades. De uma pessoa nova, um veículo novo, uma mídia nova. Tá todo mundo muito acostumado as coisas do jeito que estão. Pra que mudar?
    E no final das contas, Isabela é que está certa. A gente que é do Rio tem que se unir. A gente que é da web precisa se unir. Toda esta nova geração do jornalismo de moda precisa se unir.
    E não só pra bater cabelo nas baladas.

  2. Eu estudo comunicação na UFRGS, de Porto Alegre, e penso seriamente em ir trabalhar em SP, por que aqui não vejo oportunidade de trabalhar com comunicação de moda. Mas a falta do mercado da moda aqui tem uma vantagem: mais oportunidade pro empreendedorismo.

    Então eu penso mesmo em continuar no RS e abrir portas pra moda no estado.

    Adorei o post.

  3. Oi Márcia🙂
    Venho aqui sempre…e nunca comento!
    shame on me =X
    Mas hoje tive que comentar. Moro na cidade de Vitória no esquecido estado do Espírito Santo.
    Sou estudande de Design de Moda. Se você tem medo do mercado no Rio imagine o meu desesperoow.
    Penso todos os dias, pondero, penso de novo e sempre decido que quero pós em SP!
    Mas rezo pra depois surgir uma oportunidade de trabalho legal aqui, na minha roça.
    hahaha
    Comentarei mais! Amo o blog
    =*

  4. Oi Márcia,
    Sei bem que sentimento é esse. Sou do Recife e estive em São Paulo por um ano e meio, justamente por acredita que só ai a moda acontecia.
    Bom, consegui achar o que procurava: informação. Muita e da boa. Mas ficava com a a sensação de que voltar para casa seria meu grande diferencial.
    Aqui estou eu, em casa e feliz da vida. Também tenho um blog (www.pe360.com/amei) e trabalho como consultora de moda. É muito mais difícil, mas é em casa.
    Bjos e parabéns pelo blog.

  5. Gente, claro que ninguém gosta de TER que sair de casa, do estado ou do país pra conseguir (se) realizar (n)aquilo que gosta. Mudar é sempre mais prazeroso – e fácil – quando parte de um desejo interno e não de ma obrigação ou uma imposição. Mas vamo com calma nessa história…

    Que o Rio tá crescendo e produzindo coisas incríveis em moda, isso é fato inegável e indiscutível. E que outros estados brasileiros também são berço de crições lindas e valiosas, super bem lembrado e colocado. Mas outras questões entram em todo esse caldeirão. A concentração de oportunidades de trabalho em SP se afunila na capital paulista muito mais por exigências de mercado do que por rusgas inter-estaduais. Imagina criar toda essa parafernália que é uma SPFW em vários outros estados? Nenhum lugar se torna pólo de algo à toa. É preciso dinheiro – muuuito dinheiro -, tempo – certo tempo – e disposição – muita disposição. Esta foi a 27ª edição da São Paulo Fashion Week e só agora é que a consolidação do evento como profissional e de potecial está, efetivamente, sendo reconhecida – e retribuída. Pra isso teve muito suor e labuta de Paulo Borges, estilistas, modelos brasileiras estourando lá fora e levando o nome do país junto…

    Claro, a moda brasileira não se resume às semanas de moda brasileiras, mas são nelas que o que é desenvolvido aqui é desfilado para o resto do mundo. Desculpa Carla, eu adoro você (a gente se conheceu num curso das Oficinas na Escola São Paulo, lembra-se?) e adoro o Modices, mas não acho que vocês do Rio tenham que se unir – a gente do Brasil é que tem de o fazer, como um todo. Porque se seguirmos no seu pensamento, o mesmo sentimento que vocês, cariocas, estão nutrindo pelos paulistas nestas reivindicações, os nascidos em outros estados nutrirão pelo Rio se ele quiser se transformar no centro das atenções (não que sua intenção – é só uma ilustração para facilitar a comparação).

    O mundo todo conta com capitais da moda: NY nos EUA, Paris na França, Londres na Inglaterra, Milão na Itália…. É preciso uma concentração do forças num ponto, sim, para que ele se fortaleça e, desse modo, possa irradiar esta força para outros lugares. A realidade de muita coisa ter acontecido e ainda acontecer em SP é, justamente, porque muita coisa aconteceu a acontece nesta capital – e não por incapacidade ou improdutividade de qualquer outra produção local (que quando assim colocada chega até a assumir ares de marginal).

    A moda brasileira precisa vestir o mundo como moda brasileira, independentemente do seu estereótipo vestual, de rendas, bundas e carnaval, de samba e fio-dental e de costuras, fuxico e estado natal.

    Bejão pra todo mundo.

  6. eu ia comentar os comentários, mas ainda bem que ficou pra depois do da Tati ahhahaeuhuahe

    o que eu quis dizer é que que mora em outro lugar do Brasil não pode ver como ÚNICO rumo na vida ou até mesmo aqui vai ficar sem oportunidades. Não estou questionando a posição de destaque de SP, ou eu mesma não estaria aqui!!!!

    Mas é porque recebo emails diários de gente pedindo ajuda pra vir pra sp! Fico com medo de falar: venha!
    é uma diáspora… e no fundo não adianta vir pra SP se você nem sabe por onde começar, não é mesmo?

    post sem bairrismos, sem discutir o destaque de sp (em tudo no brasil né?),até porque EU vim pra cá – em busca do melhor curso de moda do país.

    bjsss

  7. concordo super com a tati. se o mercado tá concentrado aqui, quem quer fazer grande vem pra cá – estilistas regionais não deixam de vender em suas terras porque trabalham aqui. dá pra acontecer em cidade natal, claro que dá, mas em outra porporção, com outra velicidade de atualização, com outro tipo de contato com o exterior e com o próprio meio. tem lugar pra tudo, gente.

  8. Eu concordo quando a Tati diz que todo pais tem que ter um polo de moda e o nosso é em SP. mas… temos que olhar e cavar mais oportunidades em nossos estados. eu morei em sampa por um ano e vi que as coisas não são fáceis. tem os melhores cursos, as melhores editoras, várias marcas. mas…entrar nesse mercado é complicado. Eu consegui enrar, aprendi muito ( pq aí a gente aprende muito e na marra. pq temos que ser os melhores sempre por causa da enorme concorrencia), mas decidi voltar e fazer melhor aqui. Claro que o mercado fora de SP é muito menos e mais restrito, mas temos que tentar e cavar nosso lugar pra fazer com que esse mercado cresça cada vez mais.
    adoro o blog, adoro sampa, amo trabalhar com moda e acho super válido esse questionamento.
    beijo

  9. Mas, a gente do Rio se unir, não no sentido ruim.

    Assim como a gente no Rio tem que se unir, cada um no seu lugar tem que se unir para fazer as coisas acontecerem.

    Cada lugar, estado, cidade… o que for, tem um potencial criativo e tem várias pessoas querendo ler e consumir moda. Só que as pessoas legais preferem exatamente sair e buscar espaço em SP sufocando ainda mais o mercado.

    Falta espírito empreendedor na moda. As pessoas querem fazer as mesmas coisas. Preferem viver o sonho de trabalhar na Vogue a criar a sua Catarina.

    A Camis (do garotas estúpidas) faz coisas super boas em Recife como o Shopping Day.

    Tem os meninos do finissimo que fazem um site de moda super legal focado no que acontece em Brasília.

    São Paulo é a capital da moda, SPFW é um sucesso e espero o dia que ele se torne uma Brasil Fashion Week, e aqui no Rio a gente tenha só eventos focados no que a gente faz de melhor: moda praia (oi Rio Summer?) e comercial (oi Fashion Business?).

    Nunca foi minha intenção debater o mérito Rio x SP. E sim, que as pessoas off-SP busquem São Paulo como capital de moda, pra estudar (só faço cursos em SP!) pra conhecer coisas novas… Mas que busquem NOVAS oportunidades.

    E que as marcas e assessorias comecem a prestar atenção nos veículos que nascem a sua volta. Invistam, valorizem e ajudem. Pq essa força é fundamental pra que os blogs cresçam, os jornais locais procurem oferecer mais conteúdo de moda e novos campos de trabalho se abram.

  10. Genteee, to amaaaannndo o debate!

    Concordo com todos!

    E to muito polemista, acho que o próximo post vai dar mais pano pra manga ainda hihihihih

    beyjas

  11. A verdade é que o mundo da moda é fechado e cruel (ainda vou fazer um post sobre a minha experiencia com produçaõ de moda), e que em SP se concentram muitas assessorias, muitas marcas e muitas revistas. E ainda tem muito editor/jornalista que recebe presentinho em troca da divulgação de marca!

  12. eu sou só uma consumidora de moda e uma leitora de blogs/revistas de moda. minha visão é de quem só está deste lado.
    e entendo o que a carla está dizendo. e acho que a discussão não é um contra o outro, mas tentar fortalecer outros.
    pra mim faz falta ter mais informações sobre moda no rio de janeiro.
    um exemplo simples e direto: todas as revistas são de sp e se a gente vai na pg de endereços é tuuudo sp. por isso suuuper apóio e leio sempre o fashionismo e o modices.
    mas isso nao me faz só ver o que acontece no rio. mas também o que acontece no rio.
    quero o global e o local. quero diversidade.

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