Trilogia: Moda dos Machos – Capítulo 03

Chegamos ao último post da Trilogia dos Machos, com a entrevista com o Ricardo Oliveros, do blog Fora de Moda e que foi editor de moda da Playboy, onde fez um super trabalho (e cuja saída chocou a todos que, de alguma forma, participaram dos editoriais). A idéia para esta série veio de uma entrevista do Ricardo para a TV UOL mostrando os bastidores de um editorial da revista. Ele disse, entre outras coisas super interessantes, que os modelos dos editoriais da revista nunca eram novinhos, magrelinhos, sempre homens com cara de homens, até mais velhos do que a média de idade dos garotos que vemos nas passarelas.

Achei esse fato tão curioso! Enquanto, nas revistas femininas, as modelos são parecidas apenas com 0,01% das leitoras, em uma revista masculina, o leitor precisa se identificar de alguma forma com aquilo que está vendo ou o modelo ser realmente algo aspiracional – mas não tão fora da realidade. Essa diferença entre homens e mulheres na moda me cutucou!

Daí juntou-se a dois discursos que convivo com freqüência, de héteros falando que moda é coisa fútil ou coisa de gay; e pessoas que trabalham com moda dizendo que héteros não entendem nada de moda e se vestem mal. Será mesmo que homens, héteros principalmente, estão tão desligados de moda assim? Por isso chamei estes dois amigos, não só porque eles tem um estilo legal, mas muito mais pela cabeça que eles têm em relação a isso, pelas suas capacidades de observação mesmo sendo leigos.

Por fim, no Encontrinho com Gloria Kalil, a convidada ilustre contou que homens sempre perguntam a ela a opinião sobre o look, enquanto as mulheres ficam quietas. Curioso! E quando eu já estava na fase final de planejar essa trilogia, Gloria solta a pérola no Roda Viva dizendo que moda masculina é sem graça. Será? Foi com esse gancho que comecei a entrevista com Oliveros (que, claro, discordou da afirmação da Gloria):

Trilogia: Moda dos Machos - Capítulo 03
Ricardo Oliveros

Bainha: Se discordamos do que afirmou G. Kalil, qual então é a graça da moda masculina?
Oliveros: A primeira vista pode até parecer chata a moda masculina porque ela não tem a mesma exuberância fácil da roupa feminina. Mais econômica, minimalista, é nos detalhes que ela se revela. A grande graça é ver como cada marca avança no limite do possível dentro de um vocabulário muito enxuto: um botão que some de um terno, um decote que aumenta numa camiseta, numa transparência que se insinua. Até chegar, por exemplo, num desfile como o do João Pimenta que monta todas as suas peças no viés, que dá uma fluidez proibida na moda masculina. Precisa de um olhar mais paciente para esperar por um momento destes.

B: A moda masculina evolui nos detalhes, como você costuma dizer (e eu concordo). Desta maneria, não é muito mais fácil e simples um homem, do que uma mulher, encontrar seu estilo – já que poderíamos explicar o estilo próprio como uma característica recorrente de alguém, mas com aquele quêzinho a mais que o difere dos outros?
O: A mesma Gloria Kalil disse uma vez uma coisa muito importante. Quando você chega numa festa black tie e vê as mulheres deslumbrantes com jóias, vestidos longos, as possibilidades de se destacar são múltiplas mesmo. Os homens todos de preto com gravata borboleta, quase uniformizados na sua igualdade o que os diferencia? A atitude. Sim, mais do que roupas e acessórios, é a atitude do homem que conta. Isso não quer dizer algo? O que é mais importante no final das contas? Hoje existe uma certa confusão de códigos, principalmente na moda feminina. Ela se sente mais segura com a it bolsa do momento do que com sua própria postura. Ela se sente mais confiante estando com o mesmo cabelo loiro chapinha e a mesma boca siliconada do que com seu próprio acumulo de experiências. Ao homem com poucas opções, sobra mais ele mesmo.

B: Alguns conhecidos meus gays afirmam que héteros se vestem mal e alguns héteros, quando vêem um homem com peças muito da moda, dizem que ele deve ser gay. No fundo, são visões preconceituosas ou uma parte do público gay ainda arrisca mais em moda enquanto a maioria dos héteros é mais careta?
O: Não concordo. Hoje a maioria de gays que vejo está mais interessado em usar roupas que transmitem uma certa virilidade quase heterossexual. O período da transgressão gay pelas roupas já passou, é uma lenda urbana. Se você for a uma boate gay vai ver um monte de bichas usando bonés, corrente no pescoço, camiseta e calça jeans, o mesmo modelo usado por pitboys que adoram bater em homossexuais. Entendeu a perversão da coisa?

B: Moda para homens em revistas é muito mais um serviço do que expor conceitos ou vender sonhos de consumos quase inalcançáveis? O homem quer se identificar no editorial e não quer um ideal de imagem (como o ideal de juventude,magreza e beleza das modelos femininas)?
O: Depois que passei pela PLAYBOY percebi em mim mesmo um padrão de consumo que é guiado pela necessidade e não pelo desejo. Eu odeio ir a shopping, odeio ter que experimentar roupas e não sou consumista. A única diferença é que posso usar certas peças que a maioria dos homens não usaria, e como tenho vários amigos estilistas tudo fica mais fácil. Mas o raciocínio é o mesmo: preciso de um blazer ou preciso de um sapato. O homem comum olha a moda na diagonal, não se perde em detalhes. Vê um casaco e diz “humm preciso de um casaco” e vai na loja que ele geralmente está acostumado, ele não vai ficar batendo perna atrás de um casaco e voltar com uma calça, como é comum entre as mulheres. A gente vai as compras com um cavalo que usa cabresto nos olhos para não desviar a atenção. Os editoriais são aspiracionais e não inspiracionais. Ou seja, ele vê uma imagem de moda e percebe se aquilo tem a ver com ele ou não, se tem a ver aonde ele quer chegar ou não.

B: Há pouco tempo, saiu uma matéria em algum jornal de Economia que, ao contrário das marcas femininas, as masculinas não perderam clientes com a crise. A matéria ouvia especialistas que acreditavam que homens fazem compras conscientes e por isso não cortaram as roupas do orçamento. Você concorda? O “estilo” masculino de comprar deveria, então, ser imitado?
O:
Parte da resposta está na pergunta anterior quando digo que o homem compra por necessidade e não por impulso, tem um quê de ecologicamente correta esta atitude, não? Se tenho um bom sapato preto porque preciso de outros 3? Além do mais, homem não tem vergonha de repetir roupa. O mesmo terno azul marinho de sempre vai se renovando com uma gravata de outra cor, uma camisa diferente e por aí vai.

B: Por falar em crise e consumo consciente, não seria também o momento da moda feminina também evoluir nos detalhes ao invés de tentar reinventar a pólvora a cada estação?
O: Para isso é preciso reinventar a mulher. Ela deseja e quer sempre uma pólvora diferente.

Suuuper obrigado Oliveros pelas super respostas, obrigada aos meus amigos também. Sempre bom a gente quebrar visões pré-concebidas, clichês, etc, não é?

Estou aqui tentando achar a série que o Vitor Angelo fez no seu blog Dus Infernus com o jornalista de moda masculina Lula Rodrigues. O link para todos os posts desta série do Vitor estão neste post da Oficina. Vale muito a pena ler também. E o blog de beleza, Coisas de Diva está com uma seção nova, Coisas de Macho, onde 4 rapazes dão suas opiniões sobre beauté. Super divertido!

6 opiniões sobre “Trilogia: Moda dos Machos – Capítulo 03”

  1. creyça, venho acompanhando sua trilogia. as duas primeiras entrevistas, li de forma rápida. esta última, tive mais cuidado. coisas interessantes a se pensar e a se observar nos homens, em especial os homens comuns, como por exemplo, ramonildo. o lance do estereotipo gay e/ou hetero me chamou mais a atenção. ramonildo tem uma linda coleção de camisas gola polo de cores claras, inclusive puchando para o rosa. diferentemente do irmão dele,que ainda pensa que mulheres vestem rosa e homens azul, ele adora esse tom e eu apoio total. não apenas na gola polo, como em gravatas. não entendendo de tendências e nem nada, mas intuo que cores como esta dão um ar clássico e elegante. e, bem, não sei explicar ao certo, mas ao invés de arrefecerem a virilidade, ao contrário, a elevam. uma espécie de "puts ele é tão macho que não tem problemas, ao contrário, fica ainda mais charmoso com tons rosas. até aqui, concordamos. eu e ele. a vida em são paulo nos obriga a usar casacos e aquela espécie de blusa mais grossa que usamos por cima de outras, não sei qual o nome. quando o frio dá um descanço e tiramos aquele "pulover" de cima, eu, pelo menos, coloco em volta dos ombros e dou aquele charmoso nó na altura do busto. recomendei o mesmo para o ramonildo que assim o fez até o dia em que "amigos da pós" o informaram que aquele tipo de arranjo era coisa de bicha. que inferno! desde então, ramonildo amarra os braços do "pulover" na cintura, não só alargando e esculhambando o tecido da peça, como marcando suas pequenas banhas e ganhando aquela aura de pai de família barrigudo e "tô nem aí, o que importa é que sou macho".

    pois bem, depois desta resenha, tenho a dizer que me impressiono com as articulações "sem noção" entre sexualidade e moda. ainda estamos no tempo em que as escolhas ou orientações sexuais parecem enquadrar as pessoas e hipertrofiar as subjetividades. e me impressiono também sobre as pequenas variações, dentro de um mesmo guarda-roupa, que ainda perturbam homens e gays e mulheres e lésbicas e trans e everybody que se entende como um sexo a manifestar e a defender. ufa!
    beeeyjas

  2. quando começou o comentário, pense: quem ousa me chamar de creyça? rs
    gente, Bainha recebe comentários de mestrandas da PUC-SP, TÁ?

    Aline, pullover amarrado na cintura, a meu ver, é um pouco formal demais para Ramunildo, mesmo ele sendo advogado. heheehe mas amarrado na cintura a gente usava no colégio, vamo combinar? dá um toque eheheh

    beyjas

  3. Márcia, to AMANDO seu blog. Adoro quem fala de moda de um jeito fácil e gostoso, pra quem não entende nada, como eu. Bjobjo

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