A vida efêmera

A moda está dominando a nossa vida?

Chamamos de Moda o sistema que faz com que produtos viram ou deixam de virar tendências no mercado, vulgarmente explicando. Moda não é apenas roupa, são bens de consumo. Uma moda nasce já fadada à morte – como nós, a única certeza da vida é que ela acaba. Uma moda pode até voltar, mas não será mais a mesma, será repaginada, uma releitura, porque seu tempo já passou. Moda está estruturalmente ligada ao tempo presente, pertence a ele.

Esse sistema efêmero, que antes ficava muito mais restrito ao mercado dos bens de consumo, está dominando outras esferas da nossa vida e por isso faço a pergunta inicial. Minha memória falha, mas algum professor da Pós nos falou sobre isso em suas aulas, citando Gilles Lipovetsky. Segundo este professor, o autor de O Império do Efêmero fala algo do tipo (sobre o tempo da moda ter virado o tempo da nossa vida, em todas as suas esferas) no livro Tempos Hipermodernos. Apesar de não lembrar corretamente as referências (vou atrás disso!) concordo ple-na-mente!

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Reflitam comigo, o que dura hoje em dia? Vocês não se sentem angustiados, com a impressão de quem tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e se você não aproveitar, vai acabar rapidinho?

Vou começar com a moda em si: quantas coleções uma marca tem que lançar todo ano? Várias pequenas coleções, há uma correria louca, o consumidor quer novidade, novidade, novidade. Uma roupa desfilada ontem em Paris, amanhã já estará no Bom Retiro.

Da moda para a vida e da vida para a moda, já que ela é o reflexo do seu tempo. Angústia de não se perder em meio ao turbilhão do efêmero, esse medo de ficar obsoleto.  Alguns exemplos:

Trabalho: Meu pai passou 30 anos de sua vida trabalhando na mesma empresa, talvez na mesma sala. O meu máximo foi quase três anos numa empresa e as pessoas da minha idade ainda acham isso um recorde.

Educação: você se aprofundou de verdade em algum assunto até hoje? Mergulhou de cabeça, sabe absolutamente tudo e elaborou reflexões profundas E relevantes sobre algo?

Nos relacionamentos, nem se fala… Você apenas passa por pessoas. Nós nos desperdiçamos, a cada dia, esta impressão que eu tenho. Não importa o quanto a outra pessoa é interessante. Não importa o quanto você também seja… Vamos de galho em galho, mesmo quando isso não faz parte de sua personalidade (é romântico, por exemplo), porque às vezes precisa entrar no esquema da efemeridade e falta de apego para não sofrer com perdas… Fingimos que está tudo bem, nos fazemos de desapegados e sofremos pelo o que não acontece ao invés de sofrer por histórias legais que acabam, que é o caminho “natural” da vida (melhor do que sofrer pelo o que nem foi, concordam?).

No meio disso tudo, nos sentimos perdidos e, principalmente, insatisfeitos constantemente. Em pouco tempo você quer loucamente algo e de repente, não quer mais, tem algo mais interessante adiante. Ou, se não ficar com o novo, é considerado lento, antigo, ultrapassado. Se voltar para o velho, é clichê, quadrado. A quantidade de informação que recebemos diariamente é tão grande que nos sentimos desinformados.

Eu não sei vocês, mas se não desacelerar, vou pro caminho errado. A pressa é inimiga da perfeição e uma boa seleção é sempre bem vinda.

Espero que esteja dentro da próxima tendência.

15 opiniões sobre “A vida efêmera”

  1. marci! li este texto da Antonia Pellegrino esses dias, e tirando e incluindo alguns detalhes acho que cabe como resposta. . .

    FORA DE MODA

    Me pedem dicas. Me vêm à cabeça: consumo antenado; a jovem estilista esperta que ninguém conhece, mas eu já estou usando; a banda incrível que está acontecendo em Berlim, mas ainda não pegou no Brasil, só no meu iPod e no de uns poucos. A velha tríade bullshit contemporânea: bombação, hype e poder. Muita euforia, pouca alegria. Moda é tão chato que muda de seis em seis meses. Cansei de ser moderna, quero ser eterna.

    Dica 1: respire. Acompanhe o ar entrando pelas suas narinas, enchendo seus pulmões, perceba o modo como o ar ocupa sua caixa torácica, como abre suas costelas, aprenda a conduzir o ar dentro de você, entenda que exalar mais longo que a inspiração acalma, concentra, limpa a mente. Para respirar: medite, pratique ioga, cante. Cantando a gente é mais feliz e ainda aprende a brincar com o ar e som através do corpo.

    Dica 2: lembre-se de que você tem um corpo. Leve seu corpo pra fazer o exercício de que ele gosta. Esse papo de que exercício tem que ser perto de casa é pra quem não gosta do exercício que faz. Pesquise, vasculhe, experimente, descubra o que satisfaz o teu corpo. Quais são os exercícios que te dão tesão, a frequência com que você gosta de praticá-los, o tempo dedicado e o horário certo (em exercício disciplina é necessário, e disciplina é incrível, é ritmo). Só alcancei essa espécie de nirvana da endorfina aos 29 anos, quando encontrei a natação e a iyengar ioga – e conquistei um corpo. Hoje nado três vezes por semana, entre 2 mil e 2,5 mil metros, e faço iyengar terça e quinta. Tudo sempre à noite – é um jeito de reinventar a vida todo dia, de reencontrar o centro às vezes perdido à tarde, de respirar.

    Dica 3: o jeito mais incrível de respirar é mergulhando. O ar puro vai direto do tanque pro cérebro, liga e relaxa, ao mesmo tempo. Na água, o ar não é silêncio. Faz bolha, faz bloooooommmm, que o é Om marítimo – mergulhadores e budistas, os homens do fundo do mar e das alturas, têm muito mais a ver do que imagina nossa vã filosofia. Mergulhar é sair de si, parar o pensamento, entrar no espaço-tempo líquido, ver com os olhos detrás da cabeça, estar em estado de pura contemplação. Um bom mergulho equivale à experiência de uma obra de arte estonteante, mas um belíssimo mergulho pode ser maior.

    Dica 4: esteja sempre aprendendo. Música, línguas, mergulho, corte e costura, qualquer coisa que te entusiasme. Use outros lados do cérebro. Se você escreve, aprenda música. Se é dentista, dance. Surfe se for professor de francês. E não ande sempre na rua escutando iPod. É claro que é incrível, mas desconecta demais do presente – embora às vezes, muitas, aliás, seja o que a gente precisa. Aprenda a observar os lugares pelos quais você sempre passa. Olhe as árvores da sua rua. Acompanhe a floração dos flamboyants ou o nascimento da folhagem das amendoeiras do seu bairro. Observe como a luz varia ao longo do dia, ao longo do ano. É mágico.

    Dica 5: olhe para dentro, olhe para o céu, fale menos da vida alheia, se preocupe mais com a sua própria e aproveite toda essa conexão interior, esse belo cuidado de si, pra se jogar nas baladas certas com amigos doidos ótimos e se estragar sem freios, pudor ou ressaca no dia seguinte – com ajuda do santo Oxiboldine ao chegar em casa.

    Dica 6: a única com cara de formadora (bullshit) de opinião: trabalho é uma das grandes formas de se apaixonar, pode sim ser delicioso, mas ficou cafona essa onda de trabalhar loucamente e nunca ter tempo pra si. Estamos decretando que isso acabou. A gente agora quer ser mais feliz.

    Antonia Pellegrino – Revista TPM #91

  2. Os meios de comunicação também são uma prova disso. A internet, por exemplo, tem coisa mais efêmera que isso? A ironia é que embora muito passageiro, o conteúdo da internet está gravado pra quem quiser ler a qualquer hora. Paradoxo louco dos nossos tempos.

  3. Renata, essa preça dá uma preguiça, né? Engraçado que eu tava folheando uma Vogue de uma no atrás e sabe o que? Pouquíssima coisa mudou, mas a cada semana são apresentadas novas “tendências” novas peças, o que nos faz ter vontade do novo, que na verdade, nem é tão novo assim.
    Que tal lançarmos o movimento slow fashion?? Por uma moda que a gente aprecie por mais tempo e tenha mais tempo tamb´´m para curtir, sem medo de ser descartável. hunnn, acho que isso pode dar um bom caldo.

    Bjos

    http://www.pe360.com/amei

  4. Parabéns pelo post! Uma reflexão bem interessante. Essa efemeridade das coisas traz uma angústia, né? E é muito difícil ficar fora disso tudo, estamos totalmente inseridas…

  5. É bom tocar neste assunto sobre efemeridades, modas, tendências… Pq é muito angustiante ter um leque de coisas a seu dispor o tempo todo e ir dando umas beliscadas em algumas e só! o verbo “aprofundar” não pode ficar distante de nosso crescimento.

  6. Vivo pensando nisso, sabia?! Amo a música “paciência” do Lenine: “enqto tdo acelera e pede pressa/ eu me recuso, faço hora, vou na valsa/ a vida é tão rara (…) o mundo vai girando cada vez mais veloz/ a gente espera do mundo e o mundo espera de nós/ um pouco mais de paciência”. Ouço esta junto com outra dele q eu tb amo, q chama “O q me interessa”. Canto a plenos pulmões “eu quero estar cercado, só do que me interessa”. Amo seu blog e sua forma low profile de abordar os assuntos. Sem qualque afetação, mto bom!!!! Bjo

  7. Nossa, deu vontade até de chorar, é tudo que penso ultimamente. Também preciso desacelerar..
    Beijos,

  8. olá,

    creio que essa aceleração que você tão bem denuncia no seu post é devido a aceleração da vida mesmo. Está tudo mais rápido.

    Mesmo para nós, historiadores (eu! rs) está bem difícil escrevermos sobre qualquer tipo de assunto. Hoje, a quantidade imensa de publicações sobre qualquer tema é tão grande… Fora o acesso a informações de internet, TV… é difícil acompanhar tudo e fazer uma reflexão sobre isso. Fazer História do Tempo Presente, então… rs

    Eu estou há quase 8 anos estudando a mesma coisa, me aprofundando mais (Antiguidade Grega). As vezes eu me sinto um pouco excluída, pois cada vez mais as pessoas estão pulverizando sua formação. Eu sinto mta dificuldade de arrumar trabalho por ter um currículo tão fechado. A impressão que eu tenho é que não importa que vc seja PHDeus (rs) num tema. Se você for minimamente formado em outros, souber superficialmente de tudo um pouco, você sairá ganhando mais.

    No blog eu tenho muita dificuldade de escrever posts novos, sem ser repetitiva. Tentar produzir uma reflexão sobre os temas sem apenas bater na tecla. É dificil.

    Mas a Moda só está refletindo essa aceleração. E nossas relações pessoais, nossas reflexões. Acho que o que impera hoje é “aquele que conseguir beliscar de tudo um pouco e ainda assim produzir uma boa reflexão sobre, estará no topo”.

    Não sei até onde isso é possível. Mas, também não conseguimos lutar contra isso.

    Essa aceleração está em tudo. Não lemos mais um post inteiro, não vemos mais um vídeo até o final, não ficamos mais com a mesma pessoa por taaaanto tempo! Eu namoro há seis anos e tem amigos meus que dizem ser isso uma eternidade. E, as vezes, eu sinto como se fosse.

    Parabéns pelo post! É bom encontrar bom conteúdo e ver que algumas pessoas ainda pensam e refletem sobre temas bons e que interessam! =)

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