Simone usaria Prada?

O grande problema de ver desfiles pela internet é que 50 fotos, uma atrás da outra – mesmo que hoje seja possível ver os vídeos e ainda por cima ao vivo – me dá um tédio e gastura absurdos. Mas é claro, há aqueles em que eu tenho prazer de ver e rever cada detalhe, e com eles tenho insights loucos que nada têm a ver com a moda no sentido de “o que vamos vestir na próxima estação?”.

São estes os meus preferidos porque moda, pra mim, é muito mais do que pedaços de panos dispostos de maneira glamurosa e que mudam a toda hora. Assim como literatura não é um monte de histórias vazias impressas em papel, música não é a reunião de sons emitidos para dançar, divertir… Moda é um reflexo de nosso tempo e, o que eu acho mais instigante é que seus elementos não tem significado fixo, não são dados por quem o usa, nem por quem os cria, mas comunicam algo de acordo com seu lugar no tempo e espaço.

A mulher no final dos anos 50 e início dos 60 de onde saiu a inspiração estilística do último desfile da Prada não é a mesma de hoje. Nossa realidade é outra e o que elas vestiam na época não significa a mesma coisa para nós hoje. A mulher que vi usando as roupas da Prada não é a mesma que usou o New Look, que combinava sapatos com bolsas e sabia o comprimento exato que uma saia deveria ter. O que antes pode ter sido um sinal de submissão e futilidade, de mulher como objeto sexual do seu marido, bibelô glamuroso, pode ter se tornado símbolo de feminilidade bem resolvida, de mulher ativa e sensual, firme, inteligente, independente. Real.

De certa forma, o desfile da Prada me deu a mesma impressão do Marc Jacobs, que comentei neste texto. Da intelectual elegante… de uma feminilidade mais clean, da mulher que não precisa se exibir em excesso ou criar personagens raivosos, masculinizados, fetichistas ou infantilizados.

E tudo isso, me remeteu à Simone de Beauvoir, filósofa e símbolo do feminismo, autora do livro O Segundo Sexo. Talvez pelo cabelo das modelos, talvez por essa minha viagem sobre o tipo de mulher que Miuccia se inspirou. Comecei a ver imagens da Simone na internet e, nossa, como ela era bonita e elegante. Ao contrário daquele feioso maltrapilho do Sartre, me desculpem!

Achei até uma foto dela nua. Na dúvida se era ela mesma (afinal, não entrava na minha cabeça careta que uma feminista se deixaria fotografar nua), achei a história da foto, interessante. Simone era amante do autor americano Nelson Algren. Em uma visita aos EUA, ela pegou uma carona com um amigo de Algren, o fotógrafo Art Shay, que a levou para tomar banho na casa de uma amiga (a de Algren não tinha banheiro, acreditem). E, depois que saiu  banho, Shay flagrou Simone se arrumando em frente ao espelho.

O que achei legal é que, mesmo levantando bandeiras feministas – e às vezes isso pode significar abandono de símbolos de feminilidade por serem considerados imposições machistas – Simone era extremamente feminina e sensual. Talvez porque nossa feminilidade não seja uma imposição dos homens, como forma de dominação. Será?

Foi essa contradição que encontrei como ponto comum entre a coleção da Prada e Simone. Viagem ou não, é assim que gosto de pensar moda.

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11 opiniões sobre “Simone usaria Prada?”

  1. creyça, teu blog virou vício já há um tempinho. mas é que eu precisava dizer que tá cada vez melhor! tô até mais empolgada pra entender e estudar moda. mas essa moda aí, de que você fala.

    beyja

  2. Marcita,

    Já falei algumas vezes aqui, e não vou repetir hehe Só te dou um conselho: Não pára. Esse seu jeito de pensar moda abre muitas mentes!
    (nem eu nunca pensei que a Simone fosse tão linda!)
    Renata

  3. Nossa! Amei o seu jeito de pensar moda. É exatamente o jeito que eu penso. Moda não é coisa fútil, vaidade, consumo (muitos pensam assim). É muito impressionante como os acontecimentos históricos de cada tempo, influenciam na maneira do vestir das pessoas. Gostei muito do seu texto, meesmo. É inspirador ler textos com conteúdo bem pensado como o este seu.
    Besos.

  4. dá um alívio muito grande, depois de andar por aí tentando encontrar bons blogs de moda e não encontrar (quase)nada,encontrar o seu. na verdade já conhecia de nome há algum tempo, mas só agora parei pra entrar e ler. acho que fiz bem 🙂

  5. E eu acho que do mesmo jeito que a mulher de hoje não é a mesma dos anos 50/60, poderiam ter feito essa tendencia madura de uma maneira mais cautelosa, pq desse jeito ficou bem pesado, até meio fake. Quando bem dosado cai muito bem, como foi Salvatore Ferragamo. Prada já não gostei.

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