Os velhos e os moços

Volta e meia, meus pais aconselham pelo telefone para que eu descanse um pouco, pare de trabalhar/estudar e vá me divertir um pouco mais, preocupados à distância com o meu stress aqui em SP. Lá em casa sempre foi assim. Talvez por isso eu nunca tenha entendido conflito de gerações – porque eu nunca vivi. Talvez por isso também que eu me encante tanto pelo tema e por obras (da literatura, cinema, música, teatro) que falam disso.

No fim de semana que passou, tive duas experiências na temática: assisti ao filme Aconteceu em Woodstock, do Ang Lee, e  à peça O Despertar da Primavera, mais um musical da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho (tudo que tocam viram ouro né, impressionante!). E o figurino dos dois é o tema do post.

O filme do Ang Lee conta a história real de um cara que praticamente atraiu os produtores do festival para a cidadezinha dele no estado de NY. Todo tímido e com pais loucos, ele vê não apenas a vida dele, mas a da família, da cidade, do país, do mundo, da música, da geração dele, da minha e da de vocês revolucionados por estes três dias de “peace and music” que foi o Woodstock. A reconstituição de época do filme é INCRÍVEL – pegaram referências icônicas daquele momento único na nossa história e levaram para a tela. Como, por exemplo, o visual do Mike, produtor do festival, inspirado na caracterização do personagem de Treat Williams no musical Hair, de Milos Forman (fotos abaixo):

A roupa do protagonista (o ator à direita na primeira foto) entra na briga com seus pais (e na briga contra ele mesmo) em muitos momentos, como quando ele volta de uma “viagem” com alguns hippies vestido com uma blusa que parece marroquina. Sua mãe, durona que não conseguia compreender as “modernidades” que transformavam sua época, logo pergunta “onde arranjou esses pijamas?”.

Já em O Despertar da Primavera, o conflito de gerações é muito mais grave e os tabus muito mais fortes e intransponíveis. A história do musical (em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo) se passa na Alemanha, no século XIX. Adolescentes se vêem oprimidos pelos costumes, pelas convenções e pela dureza dos valores dos mais velhos, da sociedade, etc; o que acaba terminando em tragédias bem no estilo O Jovem Werther.

O figurino mostra a contradição da puberdade, do rito de passagem para a vida adulta. Os meninos não usam calças ainda, mas o rebelde e romântico (mais no sentido de Goethe que no de hoje) Melchior mostra que não está nem aí para as regras e usa a camisa desabotoada, sem gravata, com as mangas dobradas. As meninas ainda não usam roupas de “mulher feita”, mas a meia 7/8 à mostra é (pelo menos pra nós hoje) símbolo de sensualidade.

Diferente de uma das meninas da cidade, que “se perde” na vida, aparece em cena com uma espécie de camisola (ou vestido?) de seda branco, decotado, meio ninfa. O jeans, que já foi sinônimo de rebeldia, aparece no uniforme dos garotos no reformatório. E, no mais, as roupas dos dois adultos da peça são jogos de sobreposições para cada personagem interpretado, mas sempre mantendo a seriedade que a idade lhes convia.

Só sei que, depois dessa maratona de conflitos, agradeci por ter nascido e crescido sem brigar com os adultos por causa do meu All Star sujo ou por causa da liberdade que conquistaram para nós!

2 opiniões sobre “Os velhos e os moços”

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