Onqotô? Proncovô? Prôndi camoda vai?

Para onde a moda está indo? Qual história da moda será contada daqui a, sei lá, 50 anos?

    Foto da Ivi (que você pode comprar assim ó)

Já tem algum tempo que sinto alguma inquietação com relação aos caminhos da moda, sempre aumentada quando leio algum livro mais analítico da área. A ideia de que a moda de agora é alimentada de criações que são, na verdade, pastiches de outras épocas, me incomoda. Não que eu não concorde – pelo contrário, sempre fico buscando essas outras épocas nas roupas de agora – mas fico pensando: pra onde vai isso? Nunca mais teremos nada, nada, nada novo? Mesmo que só um pouquinho?

Aí que estou lendo Moda – Uma filosofia (ed. Zahar) do Lars Svendsen (junto com a biografia-tijolo dos Beatles, eu to maluca mesmo) e o autor, já no primeiro capítulo, trata justamente dessas questões. Ao falar sobre quando a moda realmente surgiu, ele comenta que esta reciclagem de antigos estilos sempre existiu, desde o século XV.

No entanto, estes “ciclos” de novidades eram muito maiores. A rapidez com que uma moda sobrepõe a outra chegou a  níveis tão altos que hoje fica até difícil determinar o que está out e o que está in – acho que o calendário das semanas de moda nem pode mais servir como base para essa medição.

Esta sobreposição de ciclos (a moda nem é mais cíclica, é helicoidal) faz parte da essência do que é o conceito da moda, junto com o propósito de sempre criar novidades. Como disse, na verdade, elas nunca foram SUPER novidades, coisas realmente, originalmente novas (talvez esteja sendo muito radical, mas estou fazendo uma generalização mesmo). Mas, principalmente dos anos 60 pra cá, estamos olhando até de mais para o passado. Claro, raramente as cópias dos estilos antigos são fiéis. Em geral, os estilistas fazem um patchwork de referências. Mas o novo é um velho repaginado.

Bom, pensando nisso junto com Svendsen, leio os dois trechos abaixo, os que realmente me deixaram encucada:

“É igualmente uma questão de reciclagem quando estilistas contemporâneos se ‘instalam’ numa posição no fim da história da moda e não acreditam mais em outros movimentos adiante, de modo que a única estratégia que resta é recriar os estilos de tempos anteriores em diferentes variantes.”

E este aqui:

“O resultado é que a moda contemporânea se caracteriza por uma contemporaneidade geral de todos os estilos. Com a velocidade cada vez maior da reciclagem, chegamos a um ponto em que a moda – ao realizar plenamente seu potencial – aboliu sua própria lógica.”

Seria possível dizer que a história da moda acabou porque tudo passa tão rápido e são sempre releituras, que não haverá o que contar para as gerações futuras? Ou será que o que vamos contar não é como nos vestíamos, mas como lidávamos com o vestir?

Por exemplo: se minha sobrinha de 8 anos apaixonada por moda me pergunta características da moda dos anos 60, posso listar alguns itens bem comuns. Algo do tipo: nos anos 60, as jovens passaram a usar a minissaia. Mas falaríamos no futuro que as marcas dos anos 2010 seguiam múltiplas tendências que eram, na verdade, re-re-re-relituras misturadas de estilos passados, e que cada vez mais o estilo pessoal era mais valorizado e incentivado.

Será que a Moda, com sua lógica antiga está perdendo lugar para Estilos?

Acho que to precisando ocupar mais meu tempo no mês sabático… To viajando, hahaha.

18 opiniões sobre “Onqotô? Proncovô? Prôndi camoda vai?”

  1. Fiz uma postagem minutos antes sobre a moda girar feito cão atrás de seu próprio rabo e ao mesmo tempo procurando novas posturas diante da profissão.
    Gosto muito de ler seu blog.
    Abraço

    1. que coincidência! bom saber que tem gente pensando nisso tb! vou lá ler, obrigada pela indicação

      abs

  2. Wow…adorei seu post…bom, eu acho que para quem lê livros da área, esse é realmente um dos grandes ‘problemas’ : a efemeridade da moda, a moda que fica igual um iô-iô…vai e volta, vai e volta, muda – se um detalhe e pronto!Já é lançada no mercado uma blusa novinha…ou será que é uma blusa velha, mas com um simples detalhe que ela acaba ficando ”novinha” novamente? Bom, esse tema realmente me deixa encucada…
    Gostei mto do seu blog, parabéns!

  3. Esse post me chamou atenção, sobretudo porque esta semana vou dar uma aula que, ao meu ver, guarda relações estreitíssimas com o tema que você propôs e, de alguma forma, com essa sua clara angústia acerca dos “caminhos da moda”.

    “Seria possível dizer que a história da moda acabou?” – Se esta questão for plausível, ouso dizer que o problema não está nos estilistas contemporâneos nem mesmo no próprio “campo” da moda. O fato do “novo” ser um “velho repaginado”, de não existirem mais ciclos linearmente sucessivos e definidos, dos estilistas trabalharem, em geral, a partir de um “patchwork de referências” etc, todos eles relacionam-se diretamente com uma transformação radical de se perceber e de se vivenciar a temporalidade na contemporaneidade.

    Portanto, eu vejo o problema muito mais como estrutural do que como espcífico do campo da moda.

    Hans-Ulrich Gumbrecht (Vivendo no limite do tempo) se pergunta, por exemplo, por que deixamos de estar interessados em novidades? Sua resposta é a de que vivemos em um “presente espesso”.
    Da modernidade para a pós-modernidade teria mudado a maneira do homem se relacionar com o seu passado, presente e futuro.
    Grosso modo, na “modernidade” o passado era sentido como uma etapa a ser superada pelo presente, e o presente servia de trampolim para um futuro almejado ou sonhado – ou seja, como experimentava-se o tempo de forma linear, como o tempo era sinônimo de transição, aqui cabia a novidade, que fatalmente ou felizmente, seria superada por outra novidade.
    Já na “pós-modernidade”, o presente é “espesso”, ele não é mais transitório. O presente engloba o passado, pois é capaz de reproduzí-lo tecnicamente. O próprio presente também evita o futuro, o lugar do medo, da angústia, pois o futuro não é mais o lugar da utopia, emancipação e esperança.
    Então, de acordo com Gumbrecht, na pós-modernidade o presente atualiza constantemente o que já passou e evita o futuro. E aí está o motivo de não estarmos mais “tão” interessados em novidades.
    Ainda podemos levar em consideração outras e múltiplas acepções da idéia de pós modernidade, como afirmação da fragmentação da experiência humana, como um império de efemeridades, etc.

    Tudo isso pra dizer que o “velho repaginado”, o fim dos “ciclos” definidos, os “patchworks de referências” são todos eles sintomas dessa nova forma de experimentarmos o tempo.
    Não é culpa dos estilistas o estado em que a moda se acha. Não é o fim da história da moda. Não é o fim dos tempos. Pelo contrário, é um novo tempo que estamos sentindo inaugurar e na velocidade que só esse “novo tempo” poderia ter.

    No futuro, falaremos da moda da década de 2010 não a partir dos critérios estabelecidos nas décadas anteriores (de 2010), como ciclos, etc. Temos que, antes de afirmar o fim da história da moda, procurar criar outras ferramentas de análise para estudar este próprio campo. Não dá para analisar os caminhos da moda hoje com os aportes teóricos que possibilitam o estudo da moda na década de 60. O clichê do anacronismo permanece.

    Essa questão do “fim da história da moda” é totalmente pertinente na medida em que possibilita uma análise reflexiva do próprio campo e das possibilidades de produção de conhecimento no interior dele. Mas daí a tomar esta questão como verificável empiricamente, faz toda a discussão cair num campo retórico insolucionável.

    Mas então, como abordar, como analisar a história da moda no século XXI? Que conceitos e ferramentas utilizar?
    Isso eu não sei. Só sei que aquelas do passado estão bem velhinhas… rs

    1. Mari de VR? deu a aula aqui tb né hehehehehe adorei!!!

      pois é, eu concordo que isso é sintoma da pós-modernidade mesmo – apesar de a moda sempre ter sido repetitiva, muito antes da “chegada” da pós-modernidade. e também não acho que a história acabou, só acabou esse jeito de pensar a história hehehehe

      sobre o que vc diz de como estudar a moda, então comece a fazer uma campanha na sua universidade hahahahaha por favor! hahaha
      para que os cursos ACEITEM alunos que queiram estudar e pesquisar o assunto porque o grande problema no Brasil para o estudo mais aprofundado é justamente o GRANDE, IMENSO preconceito que os cursos de humanas e sociais têm com relação aos projetos de pesquisas relacionandos a qualquer área da moda, como se fosse algo apenas fútil, não algo da cultura. a moda não é estudada de outra forma porque não é estudada.

      outro dia entrei no site do mestrado de história comparada da UFRJ. tem projeto que pesquisa as festas das amazonas gregas. PQP! e ainda devem ter bolsa de estudo…

      enfim… mundo acadêmico brasileiro e seus preconceitos.

      bjs

      1. Mari de VR sim!! hahaha

        Po, foi muita coincidência ler o seu texto justamente quando eu estava estudando sobre os posicionamentos historiográficos diante da tal pós modernidade. Não me segurei.. tive que comentar! Só me alonguei um pouco.. rsrs

        Eu tenho duas amigas que fazem moda… então, sem querer, eu comecei a ter um maior contato com este campo. E foi muito interessante poder ver como funcionam as coisas pelo lado da produção e não apenas pelo do consumo como de costume.. as pesquisas de tendências, as análises de mercado, a própria história da moda, os esforços para se chegar nos consumidores da classe C que cada vez mais vêm aumentando.. é fascinante.

        E olha, isso me leva a pensar: será que a moda não pode ter um terreno fértil no campo dos estudos de antropologia urbana, por exemplo? Para a história do gênero eu afirmo que sim. Mas história do gênero hoje já não dá muito mais né… ficar estudando só mulher, mulher, mulher.. rs A moda não se restringe ao espaço feminino e muito menos deu seus primeiros passos ali. Mas que tem tem, muitos estudos de gênero tratando de moda.

        Dá uma olhada no Departamento de Antropologia da Unicamp. Tem um pessoal lá que tem produzido bastante sobre moda. Acho que pode ser um caminho…

        Curiosa que só, fui olhar o corpo docente de moda da UVA. E é isso mesmo que você disse: a grande maioria dos professores dessa área não tem pós graduação.. pelo menos naquela faculdade.
        O mercado ensina muito.. e o melhor, ensina na prática.
        Mas eu to junto com você e espero realmente que os estudos acadêmicos nesta área ganhem mais força, que saiam das margens. Preconceito é sintoma de ignorância.

        Beijão!!!

  4. Pois é, Mari, muitos professores universitários nem tem mestrado. Aliás, não existe mestrado no Brasil na área de moda mesmo (ao contrário do que acontece no exterior). Existia um de Moda, Cultura e Arte no Senac SP, mas fechou por falta de interesse.

    muita gente também decide estudar moda porque gosta de comprar roupa, aí complica hehehe

    eu quero ir pro lado da história mesmo, história da cultura – mas acho que antropologia e comunicação (semiótica, principalmente) dariam ótimos casamentos acadêmicos com a moda.

    bjssss

  5. Muito bom o post!

    Sobre a questão discutida nos comentários, da falta de interesse acadêmico na área, é um assunto que sempre escuto na faculdade, faço Design de Moda – Modelagem no Senac.
    Os professores teóricos sempre falam da dificuldade terrível e preconceito de ser pesquisar, pensar, analisar a moda, além de colegas de faculdade que super se indenficaram com essa área, mas já perceberam que no Brasil não abrem espaço para isso.
    Tive a experiência de ver de perto uma situação em que estava se realizando um projeto incrivél, que foi a Reconstituíção do figurino do Ballet Triádico de Oskar Schlemmer. Foram, se não me engano, três anos para reproduzir todos os looks, muitos depois de váaaarias tentativas. Porém a própria instituíção dificultava a o projeto, chegamos a ficar sem alguns materiais, o que impossibilitava a continuação.
    A apresentação final ocorreu tudo bem, foi maravilhoso, O ballet foi o último projeto que envolveu o curso de Mestrado de Moda, Cultura e Arte no Senac.

    Abaixo estão alguns links com fotos e videos do projeto:
    http://www.flickr.com/photos/projetofigurino/
    http://projetofigurino.tumblr.com/
    http://www.youtube.com/user/lahakcib#p/u

    1. Oi Francielle,

      obrigada pelo comentário e pelo elogio
      lindos os figurinos – mesmo com a dificuldade, ficaram lindos! parabéns!

      pois é, é uma pena mas… problemas acadêmicos não ficam só no campo da moda no brasil, infelizmente =(

      abs

  6. Gostei muito do seu post e me perguntava isso de vez em quando. Até que cheguei a uma conclusão:
    Acho que a moda não seja somente um patchwork, pois estava se perdendo. As pessoas estavam vulgarizando.
    Não acho que a moda deixe uma pessoa sem estilo, o estilo anda ao lado da personalidade do individuo.
    Não sei se você percebeu, mas a moda estava ficando vulgar demais, com as pessoas imitando personagens de novela e funkeiras. Seios e bunda de fora é moda?
    Uma porcentagem bem pequena de pessoas usavam o que queriam e eram tachadas de brega. O que é ser brega? Você ser você, é BREGA?
    Meu ESTILO sempre foi romantico, com uma pitada de coturno e jaqueta. E… Batom vermelho. Sou brega? “Fui sim.” Tenho 33 anos e sempre me vesti deste jeito. Imagina na decada de 80 e 90. Sofria. Sempre escutava que eu era esquisita, e elas pensavam que eu me vestia assim porque era artesã e sempre trabalhei em áreas que precisasse de criatividade.
    No início deste ano, separei roupas para doar, pois aqui em Niterói a chuva levou histórias e vidas das pessoas.
    Meu marido me perguntou: – Você vai dar estas roupas novinhas?
    Eu:- Não são novas, pq essa eu usei quando tinha 15 anos, estas com 20 anos, …
    Ele: – Mas estas roupas estão nas vitrinis.
    Percebi que pela primeira vez na minha vida estava na “MODA”.

    Acho que os estilistas estão rebuscando porque tinham que travar. Se o comprimento da saia estava na “polpa da bunda”; imagina agora em 2010. Metade dela de fora.

    Desculpe se sai do assunto, pois estou exausta e sem óculos (deve ter um monte de erros.rsrsrs). Mas não poderia deixar em comentar em um post tão interessante.
    Sou estudante do curso Tecnico em Produção de MODA – SENAC – RJ.

  7. Acho que pra entender a moda dos anos 60 pra cá e essas releituras vale a pena inserir aí uma discussão a respeito da indústria cultural. E agora, nos anos 2000, já podemos falar em uma sociedade pós-massiva, que está transformando, entre outras, o modo como lidamos com a moda. Mas esse assunto é loooongo demais😉

  8. Não deve ser o fim da história da moda, mas sim o fim dessa moda como conhecemos hoje, e ao vivermos essas mudanças nos inquietamos por não termos as respostas, precisamos refletir, buscar em outras linhas de estudo como você mesma disse que casaria bem a antropologia e comunicação, casam muito bem!
    A estrutura do índividuo e suas relações com o meio estão mudando, mudando também a forma de se expressar e viver a moda.
    Talvez seja mesmo o momento dos estilos ditarem as regras, o gosto e referências pessoais, a tal da moda de rua, a brincadeira do antigo com o novo, que é um reflexo do antigo! Tudo isso junto e o fato de estarmos no meio de tudo isso, nos deixe confusas e sedentas por conhecimento, leituras e respostas!
    Vamos questionar mesmo, vencer os preconceitos acadêmicos, encontrar nossas respostas(ou não!) escrever e publicar, com isso estimular cada vez mais as reflexões e estudos nesta área!

  9. Amei seu post e acho que vc está certíssima. Recentemente também fiz um post sobre isso. Creio que a Moda está passando por um momento de “descartável”. Tudo é tão rápido, tão repentino que as vezes penso se todos nós conseguimos, de fato, aproveitar tudo que uma estação nos traz e se temos tempo de refletir sobre ela.

    Parabéns pelo seu blog!

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