Blogs x veículos: estamos criticando a coisa certa?

Nas últimas semanas, a velha discussão blogs x veículos começou a pipocar no mundinho da moda brasileiro, com participação até de jornalistas conhecidas como Lilian Pacce e uma matéria grandinha no FFW. Não entendi ainda a razão da pinimba ter voltado, se ela já foi exaustivamente discutida – inclusive em blogs. Mas talvez, alguns acontecimentos recentes tenham feito a bronca renascer, como a matéria do Caderno Ela, do Globo, com it-blogueiras.

Resumidamente, a “vaziês” de conteúdo interessante de muitos blogs famosos é o principal alvo das críticas. Jornalistas se queixaram publicamente pela falta de relevância no material publicado nos super blogs que, ainda assim, têm um volume surreal de visitas por dia. Para complicar ainda mais, estes it-blogs ainda fazem ações publicitárias camufladas de conteúdo.

Embora concorde com a maioria das críticas feitas nos textos que citei acima, resolvi fazer este post para fazer o advogado do diabo. Quem acompanha o Bainha ou já teve a oportunidade de conversar comigo sobre o assunto, sabe que eu nem sequer CONHEÇO a maioria esmagadora desses blogs comandados por it-girls. No início da história de alguns deles, eu até acompanhava, mas meu interesse mais teórico em moda – e não como consumidora – me fez abandonar a leitura.

Eu, como leitora e jornalista caxias que sou, tenho duras críticas ao conteúdo realmente fútil e sem ética de muitos deles. Principalmente os de beleza, que têm um poder de convencimento grandioso. Já comprei alguns produtos horríveis depois de ler resenhas em blogs e fiquei irada de ódio.

MAS o que eu acho realmente irônico é que levantamos bandeiras cheias de conceitos éticos e atacamos as blogueiras sem fazer uma mea culpa. Qualquer jornalista que já tenha atuado no mercado, ou em redações ou como assessor de imprensa, sabe que, muitas vezes, as relações entre jornalismo e publicidade se mesclam. Infelizmente, apenas a venda de exemplares não sustenta um veículo e quem tem o dinheiro, tem o poder – no caso, os anunciantes. E, assim como as blogueiras deslumbradas, os jabás também encantam os jornalistas.

Embora isso aconteça em diversas áreas do jornalismo, no de moda é muito mais comum. A maioria dos jornalistas está absolutamente inserida no mundinho, muito próxima da indústria, das marcas. Essa simbiose não é saudável, mas infelizmente é o que acontece – não só no Brasil.

O meu novo guru da teoria da moda, o cara que não me fez desistir e ir estudar qualquer outra coisa menos desgastante – o filósofo Lars Svendsen – fala em seu livro Moda: Uma Filosofia sobre a quase inexistência de uma crítica séria de moda e as consequências negativas para ela em suas diversas esferas: para a indústria, para o seu jornalismo, educação e teoria.

Grifei alguns trechos desse apêndice do livro e compartilho aqui com vocês. Vamos refletir mais sobre o assunto? Não importa em que plataforma você se manifeste? Vamos lá:

“As ligações entre a imprensa e a indústria nesses casos (de moda) são tão estreitas que é difícil considerar a imprensa de moda como outra coisa senão uma extensão dos ateliês.”

“A moda sempre se viu num lugar entre arte e capital, no qual muitas vezes abraçou o lado artístico para abrandar seu lado financeiro. Os aspectos comerciais, no entanto, tendem a sufocar a possibilidade da crítica genuína.”

“Isso conflita com a função do crítico de moda, que deve ser leal antes de tudo a seu próprio julgamento, depois ao público leitor, não ao anunciante.”

“Se devemos produzir crença em nosso campo, devemos ser dignos de crédito, e não seremos se não passarmos de chefe de torcida para a indústria da moda.”

“O crítico de moda deveria ser capaz de explicar aos leitores por que uma peça de roupa ou uma coleção é julgada um sucesso ou um fracasso, ajudando-os a ver essas coisas e a ganhar uma maior consciência em sua própria relação com a moda.”

“A crítica de moda é importante? Acredito que a resposta é um inequívoco ‘sim’. Uma razão óbvia para isso é simplesmente a vasta influência da moda em nossas vidas. Eu diria que a moda desempenha um papel muito mais importante na cultura que as belas-artes, o que torna ainda mais urgente desenvolver pensamentos críticos para lidar com ela.”

14 opiniões sobre “Blogs x veículos: estamos criticando a coisa certa?”

  1. Eita, li esse livro e foi quando li que mudei muitos conceitos em relação a blogs e etc. Concordo com você, mas é a velha história do livre arbítrio. Se as pessoas gostam de ler determinado blog é porque aquela fonte satisfaz ela. Do mesmo jeito que tem livros que não lemos porque é bobo demais, jornais não comprados porque não fala nada que queremos ler, revistas segmentadas estão ai provando isso. Com a grande quantidade de meios, a escolha aumenta e ai, como bem sabemos, muita gente não GOSTA de moda, muita gente gosta de COMPRAR moda por isso os blogs sem muita relevância no conteúdo ganham mais e mais visitas.
    É isso!
    Beijos

    1. exato, sempre falei isso. se eu gasto R$ 14 numa revista e ela está uma buesta, eu tenho todo direito de reclamar. mas o maravilhoso da internet é justamente ler o que eu quiser.

      mas, no caso, estava comentando como estudiosa da área – não como leitora. como estudiosa, acho lamentável a falta de uma cobertura mais inteligente na moda – mas isso não é exclusividade de blogs, era isso que eu queria dizer.

      todo mundo, do jornalista mais f%$dão ao blogueiro que não é lido por ninguém, tem que fazer uma mea culpa e refletir sobre o que sai postando por aí. tá fazendo diferença ou não?

  2. Oi… Estou acompanhando este barulho, sobre os blogs. Para ser bem sincera, sou apenas leitora, me irrito muito com muita coisa, detesto algumas atitudes das ditas blogueiras. É claro que eu gostaria de encontrar algo mais interessante que me fizesse refletir e não apenas ver algo bonito. E pensando nisso eu poderia atirar várias pedras em várias blogueiras. Bom… mas não farei isso, pois ao observar veremos que BLOG (acho que o sentido, o significado inicial de ser algo pessoal e sem interesse comercial para poder livremente falar o que quiser) este termo não faz mais sentido, não mais condiz com a atual situação de alguns sites das ditas blogueiras profissionais. Para mim, se virou profissão, tem investimento financeiro de marcas, posts pagos e tudo mais… não cabe mais naquele termo BLOG… sei lá como poderiam ser chamados… site de alguma coisa, de estilo? revistas “independentes”? Falo isso pela forma de atuação. Por isso, acho que o tom deste barulho está descompassado. Devemos refletir sobre este novo posicionamento destas novas mídias comerciais (não sou estudiosa de mídia alguma, sou apenas uma designer, artista-joalheira). O que vc acha Márcia? Podemos chamar Mariah Bernardes, Thássia Naves, Lalá Rudge de blogueiras? Acho que não. Estão mais para empresárias de estilo (lembrando que não sei como nomear sua atuação, sendo este termo o mais próximo do fazem), que usam a mídia virtual para vender marcas e um estilo. Acho que se as chamassem de editoras (muita gente ficaria furiosa) de revistas virtuais. Bom… Lembrando que não estou criticando de forma destrutiva a atuação destas moças, mas apenas refletindo sobre o posicionamento profissional deste novo nicho na moda e as usando como exemplo.

  3. Olá, tudo bem? Por onde eu começo? Essa polêmica dos blogs tem sido precisamente pra as tais “it-blogueiras”, que são as mesmas que agora trabalham com isso e tem suas rendas de blogs. Até um certo ponto acho bacana esse lance de viver de blogs e tb acho que vários jornalistas se incomodam por isso. Por outro lado me incomodo com essas meninas “pregando” o uso de certas marcas e produtos enquanto uma marca paga por isso. Assim, vemos pouco conteúdo de crítica e coisas legais e sim uma grande vitrine de produtos.
    A proposito o livro citado é bem bacana e eu inclusive estou lendo.

    Beijos

  4. Esse é um assunto que sempre vai render… sempre vai gerar polêmica. O que eu penso é as marcas, as assessorias, as empresas de moda… estão dando poder demais para um grupo muito pequeno de pessoas. E isso é perigoso. Outro problema que vejo é que todos esses blogs pregam demais o consumismo. Tudo é compra, compra, compra… Acho péssimo. Claro que é bacana comprar, ter roupa, sapatos, bolsas… novos. Mas não desenfreadamente como elas pregam. Todos os dias essas meninas compram ou ganham coisas, e, na maioria, de marcas que nem todo mundo pode ter. Acho que muita coisa precisava ser revista.

  5. Olá Márcia,

    Mais uma vez, amei o seu post. Concordo com muita coisa que diz, tanto em minha forma de pensar a moda, como também em minha experiência de recente blogueira. Acho que para além da moda, o conflito espelha algo muito maior, pois se encontra na dificuldade do jornalismo institucionalizado (não sei se esse seria o termo mais correto!) de se relacionar com uma nova realidade, com as novas mídias, etc. tanto que o conflito se estende ao campo político, grandes jornaisX blogs ditos sujos, etc. Quanto aos its blogs das its girls, esses, guardado às execessões, acabam por ser manuais de estilo e ode ao consumo e quase sempre seu conteúdo é muito pobre. Por outro lado, em minha experiência com meu blog, que está longe de se adequar a esse esquemão, percebo que o interesse do público para um olhar sobre a moda que vai além do que comprar, vestir, coordenar, maquiar… é muito menor, portanto parece que a maioria das pessoas que se informam sobre moda e afins na internet não estejam muito interessadas em algo que vai além do consumo. E concordo plenamente com você quando vê proximidade entre conteúdos e posturas no jornalismo de moda e blogueiras, também guardada às devidas exceções, acho o jornalismo de moda brasileiro quase sempre muito fraco e superficial.
    Agradeço pelo post e também pelo espaço onde podemos expressar essas ideias.

    Abraços,

    Fernanda Junqueira

  6. Adorei o post! Como tudo, acho que o caminho do meio é a melhor pedida. Não dá para achar que o blogueiro não pode ganhar dinheiro. A questão é: quais são os critérios? Fala-se de qualquer produto ou apenas daqueles que realmente se quer indicar? Gosto de ver alguns blogs como teste para alguns produtos. Só acho que faltam blogs que critiquem mais e vendam menos, que saiam da receita de bolo. Agora, o leitor tem que ser capaz de criticar o que lê, filtrar, e saber aproveitar o que vale a pena. Enfim, essa é apenas minha humilde opinião de leitora.

  7. Infelizmente a maioria esmagadora do mundo jornalistico é assim: dependemos do anuncio para sobreviver e, por isso, nada é isento! Entramos no curso com ideias revolucionárias, queremos mudar o mundo e vencer o sistema. Mas, de uma forma ou de outra somos vencidos por ele.
    Acredito que construir um blog é muito fácil… hoje, qualquer um tem um blog sobre qualquer coisa!
    O difícil é construir conteúdo e texto de qualidade, e ainda assim, conseguir competir com tantos outros existentes por aí. Muitos bons, outros nem tanto…
    Adorei este blog, voltarei sempre!
    Sucesso,
    Marília Corradi

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s