O desabafo de uma feminista

Parece que as redes sociais estão supervalorizando coisas que antes nem tinham tanto efeito nos comentários das rodinhas. Como datas. A chuva de comentários por causa do Dia Internacional das Mulheres e incucações pessoais me deram a vontade de escrever esse post.

Foto: Yvan Rodic

Me chateia muito o viés negativo que as pessoas acabam dando ao Feminismo. Não é Guerra dos Sexos, não é queimar sutiã, achar todos os homens idiotas, largar a família e se masculinizar.

Feminismo pra mim é a luta pelo fim de questões sexistas. Não quero ser julgada pelo meu sexo. Quero igualdade. Pra mim, falar mal do Feminismo – como ideal – é o mesmo que dizer que a luta por igualdade racial é bobagem. O preconceito é o mesmo. E pior, às vezes, muito mais difícil de provar.

Comentei hoje que, no dia que for tratada como um homem, eu comemoro o dia 8. Obviamente, fui mal interpretada por – mulheres, óbvio. A misoginia é muito pior vinda de nós mesmas.

Ser tratada como homem não é algo negativo. Significa: minhas diferenças físicas e funcionais com os homens não devem interferir na minha criação, nas minhas relações interpessoais, no trabalho – e mais, devem ser respeitadas.

Eu sou Feminista SIM. Mas, ao contrário do que alegam os críticos a ele, eu gosto de ser mulher, eu amo maquiagem, moda, bijuteria, carinho, gentileza, bombom, flor, corações. Não acho feio quem larga tudo pra ser mãe e dona de casa, nem aquela que foca na carreira. Eu quero explodir em feminilidade porque é simplesmente lindo, é humano. Eu quero que a mulher possa fazer as mesmas escolhas que os homens sem serem criticadas por isso. Ou que os homens possam decidir por coisas “femininas” sem serem taxados também. Eu sou GENTE, antes de ser mulher. Nossa sociedade há muito perdeu sua porção feminina. E é por isso que eu luto.

Eu não quero acabar com meu jeito de mulher, com coisas que, por vezes, vieram de um passado de opressão. Eu quero é equilibrar as forças. Reflito que, entre o jeito da mulher e o jeito do homem, o nosso é muito mais harmônico e, por incrível que pareça, revolucionário. Por isso, pra mim o Feminismo não serve para masculinizar nosso modo de ser, mas sim feminilizar o masculino que, ao meu ver, é insensível e não cabe mais no nosso mundo. A não ser se quisermos destruí-lo

Quando digo que o jeito masculino que dominou o mundo é nocivo, não quero crucificar meu pai, meus amigos. É o homem com figura cultural – características que a nossa sociedade, ao longo dos anos, deu como um homem. Características essas que oprimem o próprio homem. Virilidade, agressividade, competitividade, dureza, falta de sentimentos. Claro que, em certas dozes, elas são necessárias. Mas precisam se equilibrar com as que a cultura atribui às mulheres: emotividade, delicadeza, amabilidade.

Não vamos nos dividir em times, em papéis. Eu CANSEI disso.

Teimo em bater na tecla que as diferenças que dizem ser “naturais” são CULTURAIS. E, assim, passíveis de mudanças. Vão levar séculos, mas eu espero contribuir na minha passagem no mundo com elas.

 Será mesmo que o homem é naturalmente poligâmico e a mulher monogâmica? Se fosse assim, todas as espécies de animais teriam essa lógica. É tudo cultural, até mesmo o conceito de homem e mulher.

Se ainda não me fiz entender, vou usar um exemplo.

Acho que uma das principais queixas de hoje vem do campo de relacionamentos. Como é difícil equalizar os quereres. Mulheres estão confusas no novo papel de livres sexualmente. Homens estão confusos – até mais ainda – com isso. Mulheres podem fazer sexo com quem quiserem, teoricamente, mas melhor não colocar nenhuma carga emotiva porque provavelmente (não é regra, enfim) o homem ou não quer compromisso ou acha que a menina que curte sexo não é pra se amar (SIM, isso ainda existe – excelente texto aqui).

Já bati muita cabeça porque eu mesma sofro – sempre sofri – com isso. Não consigo me ajustar às minhas próprias contradições. Meu corpo pede uma coisa que minha cabeça não obedece. E o coração só sofre. Por isso, de tanto pensar, acabei traçando uma pequena teoria:

Quando chegamos na adolescência, tanto os meninos como as meninas sofrem uma pressão para se iniciarem na vida amorosa e, depois, sexual. Mas, vamos voltar a fita um pouquinho? Para simplificar vou usar como objeto filmes e desenhos que assistimos quando somos crianças.

Respondam: quais desenhos são para meninas, quais são para meninos?

Meninas assistem, principalmente, contos de fadas. 80% deles têm romance. É a p&¨%$# da fantasia do príncipe encantado que insiste em existir. Desde pequena aprendemos que amar é o final das coisas, TEM QUE DAR CERTO! A mocinha sofre, sofre, sofre, mas no final ela consegue um amor! Um herói romântico!

Conheço uma mocinha muito esperta de 4 anos que já idealiza seus namorados. Ao ver o amiguinho com a mesma fantasia de pirata no carnaval ela confidenciou: ele agora então vai ser meu namorado! Se eu pudesse explicar pra ela, por experiência própria, que nem sempre o cara igual vai gostar dela, eu faria. Não queria que ela se tivesse que aprender com foras, como eu.

E os meninos? Filme de carros, super-heróis, aventura, mágicos. Coisas legais pra caramba que a gente pode ter na vida.

O único super-herói mais amoroso, que eu me recordo, é o Homem Aranha, perdidamente apaixonado pela ruivinha. Não à toa ele é um nerd estranho. Os meninos podem até gostar das menininhas na creche, mas eles aprendem desde cedo que amor não é o centro da vida, o final da história. Que na vida, a gente tem missões a cumprir ou apenas se divertir MUITO. Homem-Aranha termina com a ruivinha por que? Ele precisa salvar o mundo!

E aí, depois de adultos, essa menina e esse menino se encontram e já avisaram que eles podem ter o que quiserem: um beijo, um lance, uma ficada, namoro, casamento.

Mas, como tirar da nossa cabeça o condicionamento que amor e romance é importante num mundo que diz que eu não posso me envolver tão fácil e que eu devo ir experimentando sem ficar triste com eventuais rejeições? Como explicar pros meninos que eles podem demonstrar sentimentos, que se envolver nem é ruim e que as meninas se importam com coisas que, pra eles, ou não querem dizer nada ou são sinais de fraqueza?

Ter sentimentos e demonstrá-los não é fraqueza. Tem coisa pior do que ser taxada de louca? Já repararam que todo cara, ao dizer que uma menina se apaixonou por ele ou se afeiçoou por ele – mas ele não quis nada – era louca? Ou a namorada que perde as estribeiras diante da aparente frieza ou tranqüilidade do namorado e é taxada de louca?

Nós somos loucos. E isso é normal! Nos envolver com quem nos dá carinho e atenção é normal, até um cachorro faz isso, até um gato! Como diria Renato Russo, “sou um animal sentimental, me apego facilmente ao que desperta o meu desejo”.

Como também é normal e saudável dar energia pra outras tantas coisas legais na vida e não pensar só no príncie encantado: sair com amigos, jogar futebol, viajar com a galera, ficar sozinho lendo, salvar o mundo.

Como diria o Lulu Santos: VAMOS NOS PERMITIR! Estão nos toreando sem percebermos.

Feminismo pra mim é um meio, uma luta para achar essa fórmula mágica entre o racional e o emocional. Quando isso acontecer, ele perde seu sentido. E tudo fica igual. É utópico? Talvez. Mas é uma das poucas causas que eu acredito.

Por isso, me respeitem. NOS respeitem.

Beijos.

PS.: Um amigo meu me chamou a atenção que parece que eu quero que o padrão das meninas, com seus romances idealizados, ganhe. Não gente, NÃÃÃÃO!!! Deus me livre de um príncipe chato de conto de fadas. Eu acho as Princesas da Disney umas pragas, sou contra a hegemonia do rosa para as meninas. Vamos brincar de Playmobil, mais legal hahahaha

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