All work and all play – minha crítica

Bom, se você ainda não viu esse vídeo (aquela cobrança imbecil de ser atualizado da nossa geração), veja antes de ler esse post.

Como sempre, a Box 1824 produz vídeos muito bacanas sobre tendências de comportamento e nossa geração. Complementar ao outro vídeo deles, que comentei aqui, esse fala sobre a geração Y e o trabalho, a vida profissional. Ele veio num momento muito propício porque tenho observador que muitas pessoas da minha geração estão insatisfeitas com o que fazem e/ou estão completamente perdidos para descobrirem o que exatamente os satisfazem como profissionais – e mais – se essa satisfação é possível e plena na vida profissional.

Gostei do vídeo ao mostrar que cada vez mais as pessoas entre 20 e 30 anos, mais ou menos, buscam trabalhar com o que dá prazer e não só, necessariamente, com o que dá status, estabilidade ou/e dinheiro. Mas achei o vídeo um pouco positivo, otimista d+. Não achei condizente com a realidade. Talvez por ser apenas uma macrotendência, tenha deixado de fora alguns aspectos de hoje que possam influenciar no futuro. Comecei a escrever esse texto e ele ficou muito confuso, por isso decidi dividir em tópicos minhas críticas sobre o vídeo:

  • Nele, comenta-se que 54% dos jovens que já estão no mercado de trabalho possuem ou pensam em possuir seu próprio negócio. ORA, pretender é bem diferente de TER, não? Abrir o próprio negócio não é tarefa nada fácil. Além de exigir um bom dinheirinho inicial (coisa que muitos não têm, ainda mais em época de crise), é necessário se dedicar muito, sem direito a fins de semana, feriados e férias por muito tempo. Estamos querendo isso MESMO?
  • Ok, criamos nosso próprio negócio para realizar nossos sonhos, mas quanto tempo vai durar? Nossa geração está cada vez menos paciente para pensar a longo prazo, alguma empresa funciona assim? Agüentaríamos as cobranças? E digo mais, convivi há pouco tempo com pessoas um pouco mais novas que eu que são muito mais intolerantes com cobranças (enxergam cobrança em tudo, levando a vida com cada vez mais leviandade e efemeridade). Desculpem, mas não acho que uma empresa, um negócio próprio pode surgir assim.
  • Discordo que é apenas o prazer que move nossa geração em busca do trabalho. Pesa, mas conheço ainda muita gente que está interessada muito mais em bons salários e reconhecimento das empresas onde trabalha do que em trabalhar em algo que ama. Talvez a diferença com as gerações anteriores é que os jovens profissionais torrem esse dinheiro alcançado com seus trabalhos a curto prazo, com bens de consumo que se esvaem rápido. Ou com coisas mais prazerosas como viagens.
  • Estabilidade é coisa da geração baby boomer? Bom, a febre por concursos públicos, pessoas se matando e atingindo níveis absurdos de falta de ética nos mostram que a busca por um trabalho estável e, de certa forma, estagnado, não é tão coisa do passado assim.
  • Fora que sim, muita gente quer trabalhar com o que gosta, mas do que eu gosto mesmo? Nossa geração desfocada, inflada com tanta informações, tem dificuldade imensa de descobrir do que gosta e se isso é capitalizável.
  •  Além disso, nem todo mundo tem perfil criativo, empreendedor, festivo. Tem gente que é introspectivo, gosta de rotina, de norma. Quer ser pesquisador, programador de TI, engenheiro de produção, peão de obra, bombeiro, SEI LÁ! As pessoas trabalham por necessidade, antes de tudo. A maioria não tem escolha. Meu pai queria ter sido arquiteto, publicitário. Mas foi ser administrador de empresas na CSN. E teve suas conquistas.
  • No fim, acho que a nossa revolução por tentar ter uma vida menos sofrida é tentar diminuir a dependência do dinheiro e pela necessidade feroz de consumo, que come nossos míseros salariozinhos tão suados ao fim do mês. E não trabalhar com o que te dá prazer.

O vídeo, pensando bem, é bem deprimente pra quem não tem métodos para se libertar da rotina chata do assalariado. Parece aquelas matérias da revista do Globo sobre jovens cools e empreendedores do Rio, que ainda conseguem tempo para a praia durante a semana e depois uma esticadinha no Jobi. E você lá, acordando cedo, pegando bus, fazendo hora extra, agüentando cliente chato. Talvez  pra vida toda, amigo.

PS.: um post ácido sobre o vídeo, mas bom – Leia aqui

6 opiniões sobre “All work and all play – minha crítica”

  1. eu adorei o vídeo, achei bem bacana e eu já tava com um monte de coisas na cabeça… mexeu bastante comigo de uma maneira positiva e logo depois de uma maneira negativa – até mesmo apontada por vc. não é todo mundo que pode se dar ao luxo de largar a grana que recebe pra se aventurar num outro emprego que lhe renda menos mas que lhe faça um bem enorme pelo prazer que lhe proporciona, ou começar um negócio próprio com um certo investimento. será mesmo que existe esse tal emprego esperando por cada um de nós ou é um privilégio de poucos? eu não sei bem… mas se não tentarmos, como lidar com aquele “e se…”?

    1. Obrigada pelo comentário, Vitinho!
      Pois é, quando vi o vídeo, me deu uma injeção de ânimo, mas logo depois fiquei triste porque não é tão fácil assim sair correndo pelo o que se gosta. Sei lá, acho que temos que aprender a lidar melhor com o que não gostamos TANTO, com o desconforto… acho que isso é um problema dessa tal geração Y e a solução nao é só fazer o que se gosta, mas aprender a equilibrar.
      bjss

  2. O vídeo é extremamente hedonista, como essa geração (que faço parte). Acredito sim que o desejo de trabalhar com algo que se ama é gigante nas nossas cabeças, ainda mais por vermos diariamente esses exemplos bem-sucedidos e pensamos “porra, eu também sou inteligente e tenho ótimas ideias, pra que vou ser explorado nesse trabalho de merda?!”. Mas se fosse fácil, ninguém tava sofrendo por aí, né? Ter seu próprio negócio e alcançar sucesso é difícil! Tô tentando botar na minha cabeça que é possível consumir menos e investir o dinheiro em coisas mais duradouras do que modismos… como viagens, bens de consumo mais duráveis e etc… Pra mim a solução vai ser viver com menos, mas ainda sim de forma prazerosa. Sonho com uma casinha na mata onde dê pra plantar e criar galinhas, mas que também tenha internet. Hehehe

  3. A questão é que o vídeo não apresenta uma proposta, apresenta o que os millenials responderam para a pesquisa. Por isso é que não é muito realista…
    As pessoas podem não ter o perfil ou a disciplina para manter um negócio próprio, mas elas querem se ver (e serem vistas) como seres criativos. Os millenials se inspiram em histórias de empreendedores que largaram a faculdade, que mantêm um estilo de vida de adolescente e viraram milionários da internet.
    Essa história de ter o sucesso e o prazer ao mesmo tempo é o sonho de todo mundo. Quem não quer?

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