Os neo-românticos

Um dos filmes mais tristes e bonitos – principalmente no sentido estético – que vi nos últimos anos é O Brilho de Uma Paixão, que conta a história da paixão impossível do poeta inglês John Keats e da jovem Fanny Brawne. Por causa de uma série de fatores, mas principalmente por causa das convenções sociais da época que dificultavam a liberdade na escolha dos casamentos, eles não conseguem dar vazão à paixão que sentem um pelo outro.

brilho de uma paixão

Keats viveu no início do século XIX e foi um dos representantes do Romantismo inglês. Sua história mostra muito como era o espírito romântico da época.

O Romantismo com letra maíscula não é levar flores, foi um movimento onde artistas de várias áreas (literatura, música, artes plásticas, etc) tinham como questão central de suas obras o indivíduo. Eles voltavam para si próprios, mostrando questões sobre a condição humana em tom dramático, ideais utópicos, escapismo, morbidez, e amores impossíveis.

230781_553309931347396_2119818587_n

Nesse último quesito, relatavam paixões platônicas por mulheres idealizadas e impossíveis – muitas vezes eram mesmo, mas por isso, esses artistas criavam imagens errôneas para suas musas, carregadas de perfeição que ninguém tem. Era bonito sofrer, era inspiração para a arte e poesias.

Conto tudo isso para dizer que tenho percebido que essas características dos artistas do Romantismo em ALGUNS caras da minha geração. São coleções de histórias (algumas autobiográficas, outras que escuto das dezenas de amigas solteiras incríveis, e até mesmo de amigos que se sentem assim) que vêm me mostrando isso. Até mesmo um amigão meu vem reparando isso em seus amigos e seus causos amorosos.

Alguns caras estão românticos demais – não no sentido mimimi que fazemos do romantismo, volto a dizer. Mas sim românticos no sentido de criarem uma ideia absolutamente idealizada das mulheres e dos relacionamentos. Meu mestre e guru Xico Sá diria que são os homens frouxos de hoje. E alguns são mesmo. Mas acho que vai além de frouxidão.

O colunista da revista Época Ivan Martins disse exatamente isso neste seu texto (leia aqui, muito bom). Ele conta que muitos amigos dele colecionam casinhos com muitas meninas, ao mesmo tempo e etc. O famoso “rodar pratinho”. Mas não se sentem felizes com isso, estão em busca de uma coisa bacana, mais duradoura.

Mas, por que não conseguem, se têm tantas opções? Porque idealizam um tipo de menina e um tipo de sensação ao encontrá-la que, na maioria das vezes não acontece. Quantos casos de amor arrebatador, assim, de cara, vocês conhecem? E quantos taaaantos outros casos nasceram de situações comuns e de sentimentos que foram crescendo com o tempo?

Assim, quando estão com uma menina, sempre acham que lá no meio da multidão poderiam encontrar outra mais bacana – mesmo que inconscientemente – e ficam numa experimentação eterna.

E não, não é o mesmo que galinhar por esporte porque esses meninos sentem uma certa angústia. Como disse Martins no texto citado, “Da parte dos caras, a queixa é outra. “Eu não me envolvo”, eles reclamam. Sai moça, entra moça, e fica o mesmo vazio”. Por isso, se você está lá conversando com um bofe conquistador e ele diz que quer se apaixonar, não duvide, mesmo que você fique sabendo de mais dois novos casos dele a cada dia.

Alguns deles não ultrapassam a barreira de um ou dois encontros porque, por mais incrível que a menina seja, eles não sentiram nada de “mágico”, com cara de cena de encontro de filme de comédia romântica mal feita. Juro para vocês que acredito que esses meninos, tão descolados e pegadores, acreditam com veemência em amor à primeira vista. Que quando eles beijarem A princesinha de suas vidas, vão sentir uma coisa no peito… Parece até que foram eles que cresceram vendo Cinderela, Branca de Neve, etc. Chegam a dispensar as pretendentes mesmo antes de “finalizarem” a situação. Já não se fazem cafajestes como antigamente…

Por isso, muitas vezes, vão encontrar essa “magia” em situações que alimentam esse gosto pelo impossível e idealizado, como relacionamentos à longa distância (muito fácil se apaixonar por alguém enlouquecidamente , mas que não vai estar todo dia “pentelhando”, né?) ou com mulheres comprometidas ou “proibidas”, tipo a namoradinha de um amigo seu.

Mas epa, não somos nós que fomos criadas para um romance de conto de fadas? Acho que são tipos diferentes de idealizações. Nós podemos fazer leituras erradas das situações e pensamos mais do que deveríamos. Mas repito: é diferente. Nós damos chances aos moiçolos mais ariscos só para ver qualé. Como diz Ivan Martins:

Olhe em volta: diante de um cara apaixonado, bacana, determinado a ficar com elas, boa parte das mulheres sossega. O cara pode não ser perfeito, mas se torna “o cara”. Há nisso um pragmatismo que muitos homens perderam. Enquanto as mulheres escolhem de maneira apaixonada, mas com os pés no chão, eles parecem viver nas nuvens, sonhando com a mulher perfeita. 

Claro que isso não é também uma questão de gênero somente porque também conheço mulheres que são esses românticos – mas entre umas 30 histórias de homens assim, conheço de 1 mulher apenas. Mas veja o caso da personagem Hannah, do seriado Girls. No oitavo episódio da 2ª temporada  podemos ver um exemplo desse fenômeno (não vou falar o que é para não ser spoiler).

É uma pena tudo isso porque coisas bacanas poderiam acontecer pra todo mundo, mas não parece haver disponibilidade para tentar. Movimentos como aquele do “Mais Amor Por Favor” soam falsos e utópicos – olha aí a utopia romântica novamente. Todo mundo quer ser amado, tudo é no eu, nessa era ultra individualista. Mas amor que é bom ninguém quer dar!

556897_580233668654127_207151458_n

Esses caras, que gritam aos sete ventos que querem se apaixonar, que se sentem sozinhos, etc; deveriam sofrer por algo real, não pelo vazio do excesso.

Parece que fogem a qualquer sinal de interesse de uma menina bacana que poderia ameaçar esse moto contínuo de dificuldade tipicamente romântica, esse draminha tolo. Não é? Ou seria um medo danado de provar do próprio veneno da rejeição? Uma desculpa muito comum é “você vai acabar se apaixonando por mim e vai se machucar”. Virou vidente agora? Já decide que a menina vai se apaixonar E que ele vai sacaneá-la? Não seria, no fundo, um medo do cara?

Calma gente, gente legal não morde! Pode ser namoro, pode não ser. Pode dar certo ou não! Não dá certo tentar adivinhar no que vai dar uma história antes de vivê-la. É como diz esse cartaz:

5b178e53ad8413de2bb2a5cdff125f2c

Fecho o post com as palavras geniais do mestre Lulu Santos, que sempre tem algo a dizer. NÃO, não é o “Último Romântico” e sim “Tempos Modernos” (o título deveria ser tempo atemporal, já que a letra é sempre atual hahaha):

8 opiniões sobre “Os neo-românticos”

  1. Bom, todo mundo que amar e sentir aquele elevador dentro de si mas não quer sofrer… ai ai ai… e te digo de cadeira, nem todo relacionamento a distancia tende a dar errado ou ser algo que é meio ilusão. Meu noivado começou a distância e continua assim e na mais pura harmonia e felicidade, isso não quer dizer que temos nossos desentendimentos, que não nos vemos mas que nos dá mais tempo para nos conhecermos pois conversamos muito mais que muitos casais que moram na mesma cidade… acredito que seja mais a maturidade do relacionamento, das pessoas envolvidas. Temos confiança e respeito pelo outro e isso quer dizer que se moro longe, não vou ficar olhando pra grama do vizinho ou sonhando com outra pessoa. Ambos sabemos quem somos, nossos defeitos e caras assim que acordamos de manhã. Romantismo é bom mas somente em livros, achar o chinelinho pra esquentar seu pé é dificil mas não impossível.

    1. ai, claro, me expressei mal! não acho q todos os relacionamentos à distância são ruins não! só acho que muita gente procura um relacionamento assim porque considera mais desafiante e menos “maçante” que ver alguém sempre – o caso dessa galera que idealiza, etc

      1. Acho que isso é mais para pessoas mais novinhas ou pessoas que não tiveram tantos relacionamento “reais” e frustrantes quanto eu. Desafiante é sim mas qual o relacionamento que não é desafiante? Sabe o mais gostoso é saber que aquela pessoa fica um dia inteiro num ônibus intermunicipal só pra te ver, conversar e ver um filme do seu ladinho do que aquela outra que te liga falando que não vai poder te ver pq está chovendo bastante (digo chovendo e não alagando ou uma tsunami invadindo a cidade) ou pq não quer sair de casa no carnaval… as vezes o principe realmente tem que matar um dragão pra ficar com a princesa.

  2. Oi Rosana,
    entendi, mas acho q você está entendendo errado a questão do texto, rs
    não é sobre relacionamentos à distância, eu só comentei que ALGUNS desses meninos que têm esse comportamento preferem namorar meninas de outra cidade por questões DELES.
    cada caso é um caso e com certeza esse texto aqui de cima não é o seu🙂
    bjs

  3. Ihhh, esqueci de falar que peguei apenas uma pequena parte do seu texto pra comentar pq se fosse ele todo, vixe santa, seriam dias e dias de reflexões e debates!
    bjs

  4. Tenho um amigo que é o mais líquido de todos. E conheço mil pessoas em algum dos lados dessa situação.
    Mas o Guilherme, quando leu, fez um comentário pertinente: as mulheres nem sempre são tão abertas a dar uma chance para o cara bacana, rola um sério risco de ir parar na “friend zone”…

    1. é, mas aí acho q é assunto pra outro post, né? rs
      todas as mulheres q eu conheço só colocam na friendzone um cara legal q dá mole se elas não tem a menor atração sexual por eles ou porque estão apaixonadas por outro.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s