Flabeurt “inspired”, por Eça de Queirós

A cópia, no mundo das modinhas, ganhou um nome mais “chique”, o inspired, que em inglês quer dizer “inspirado”. Ou seja: ao invés de dizer que fulano copiou tal coisa, ele “se inspirou”. O que, no funnnndo, não é uma mentira porque nada se inventa, tudo se transforma e, para se transformar uma coisa já existente em nova, tem que se inspirar na antiga. Confuso?

Bom, a verdade é que existem coisas que são MUITO inspiradas nas outras, concordam? Mas isso não é exclusividade da Moda, como se os estilistas, dentro do grupo de outras funções criativas como músicos, artistas plásticos, etc; fossem menos dignos que esses colegas. Não, minha gente, existe obra “inspired” por todo o canto.

Como os críticos literários dizem que é a obra do português Eça de QueirósO Primo Basílioque, segundo essas análises, foi fortemente influenciada pelo romance do francês Gustave Flaubert, Madame Bovary (outro romance na mesma linha é Anna Karenina, do Tolstoi). Nunca li o romance português e estou lendo o francês agora, por isso não posso comparar. Mas, de fato, pelo pouco que sei da obra de Eça, os livros têm temática parecida, uma forma de crítica ao amor romântico idealizado. Aliás, um parênteses: estou AMANDO Madame Bovary, é um livro muito atual e cheio de insights geniais sobre consumo (estou lendo por causa do Mestrado) e, quando acabar, quero escrever sobre ele.

9789722416610

Mas, voltando à história das cópias, estava lendo há algum tempo, lá pela metade do livro, quando Flaubert diz que Emma Bovary, a nossa protagonista, pensa o seguinte:

“Era a primeira vez que Emma ouvia dizerem-lhe aquelas coisas, e seu orgulho, como alguém que relaxa em uma estufa,  espreguiçava-se languidamente ao calor daquela linguagem.”

ORA, eu já tinha lido algo do tipo antes. Me veio logo à cabeça um trecho de Primo Basílio que ficou popular depois que Marisa Monte incluiu em Amor, I Love You. Resumindo:

“Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades e seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas como um corpo ressequido que se estira num banho tépido.”

Quem escreveu primeiro, quem copiou quem? Flaubert lançou o seu romance em 1857, enquanto Eça foi em 1878. Ou seja, a “inspiração” veio do coleguinha francês. Fiquei chocada com a informação. Precisava, querido Eça?

Mas ok, perdoo ele porque além da linguagem ser mais inspirada (talvez por problemas de tradução de Madame, que possa ter feito perder a magia de se ler no original), o resto do trecho é muito mais bonito do que o que está na história de Emma. Diz Eça:

“Sentia um acréscimo de estima por si mesma e parecia-lhe que entrava, enfim, numa existência superiormente interessante onde cada hora tinha seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase e a alma se cobra de um luxo  radioso de sensações.”

Na minha humilde opinião, muito mais poético que Flaubert. É, talvez eu seja tola e facilmente “caível” na pilha do amor romântico idealizado como as duas personagens, Emma e Luísa.

Mas enfim, era isso que queria comentar. Algumas “inspirações” chega à literalidade da cópia, mas isso não é exclusividade da Moda. No mais, estou de olho!

2 opiniões sobre “Flabeurt “inspired”, por Eça de Queirós”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s