Estilo Emma Bovary

Como disse no post passado, li o clássico de Gustave Flaubert, Madame Bovary, para meu curso de mestrado. Eu e a maioria das pessoas tendemos a ficar imaginando como seriam os personagens dos livros que lemos, correto? Para alguém que ama história da indumentária/moda como eu, esse exercício imaginativo se estende às roupas também.

Ainda mais numa história como esta: para quem não sabe, Emma Bovary, uma pequena burguesa nascida no campo, se deslumbra com as possibilidades de coisas que ela pode consumir quando se casa com Charles Bovary, um médico do interior da França. Sua perspectiva idealizada da vida, principalmente quanto ao que ela consumia, usava; acabam levando a um final digno de tragédia grega. Trata-se de uma versão mais trágica e menos besta daquela história da Becky Bloom – para ilustrar BEM mal e porcamente, me perdoe Flaubert!

Não vou me ater muito a essas questões neste post porque não é o objetivo aqui, mas para quem se interessar, além do próprio romance, indico o artigo da minha orientadora, Laura Graziela Gomes, Madame Bovary ou o consumo moderno como drama social, presente no livro Cultura, Consumo e Identidade (Ed. FGV, org. Livia Barbosa e Colin Campbell); e tambémo livro do sociólogo americano Colin Campbell: A Ética Romântica e o Espírito do Consumismo (Ed. Rocco – anda esgotado, mas procurem!).

O que eu queria mesmo fazer é alimentar nossa imaginação pensando como Emma se vestiria, a partir dos meus conhecimentos da indumentária da época do livro. Flaubert quase não descreve suas roupas – que pena! – mas a partir do ano em que o livro foi lançado, podemos ter uma ideia: 1857.

A maioria dos historiadores da Moda que eu estudei (principalmente o James Laver em A Roupa e a Moda) divide o Séc. XVIII nas seguintes épocas: 1800 a 1850 (estilo Império do reinado de Napoleão, depois o período do Romantismo), e entre 1850 e 1900 – com destaque para a Era Vitoriana e a Belle Époque (posso me alongar nisso depois, um dia quem sabe? Aliás, estou dando aulas de História da Moda, aliás!). Vale lembrar que, neste período a moda não mudava TÃO loucamente rápido como agora, ok?

Emma Bovary, portanto, viveu a transição do estilo romântico (mangas presunto imensas, decotes canoa que deixavam os ombros caídos, ar frágil) e a década seguinte, onde o fortalecimento da classe burguesa na Inglaterra e na França levou a uma maior sofisticação na moda e ornamentação na roupa feminina.

Achei muitas imagens, mas travei uma guerra aqui: seriam suas roupas mais escuras (porque austeras e simples) no início e mais claras quanto mais dramática, romantizada sua vida ia ficando? Ou o contrário? Voltei ao livro para procurar pistas e Flaubert cita uma capa de viagem preta e pensando também no lado sombrio do romantismo, então fiquei com a segunda opção. Como Emma, no início da história, é uma mulher mais contida em seus impulsos consumistas, imagino que pudesse usar roupas mais simples, para o dia  (vestidos de 1843 a 1850, do acervo do MET):

1843 met museum 1845-49 MET

1845-50 Met

A partir da década de 50 deste século, como disse a burguesia se destaca e o seu poder de consumo aumenta, mesmo a pequena burguesia. Emma se deslumbra e quer sempre o melhor, almeja as novidades que vêm de Paris. Uma das principais características da moda dessa época é o uso da crinolina: anágua de tecido engomado feito de fibra de pelo de cavalo sobre uma gaiola, que dava um volume imenso à saia. Como ilustra a imagem abaixo, que é de 1860, mas ilustra bem o auge do volume das saias (a mulher foi aprisionada no espartilho e numa jaula – literalmente!)

crinolina

E uma cage de 1856:

armação

Provavelmente, apesar de não ser muito preocupada com dinheiro, Bovary não tivesse bala na agulha, d’argent, para tamanha extravagância (da primeira foto). Mas podemos pensar em vestidos mais sofisticados para a metade do livro em diante. Investia em tecidos mais nobres como veludo, tafetá, cetim, mousseline, mandava trazer rendas e acessórios:

1857-60 met

1845-49 met 1845-50 MET 1851-53 met  1859 met

Esse seria bem propício para Emma (do comportado ao mais “livre”):

1858 met

Já para suas viagens, que tal:

tumblr_mftfdiGzm71qcddvlo1_500 capa 1860 MET

Completando, o traje de andar de cavalo que também é mencionado:

Lovers-Morning-Recreation-Sarony-Major-1850

Além dos vestidos, fiquei imaginando como traduzir os badós, tradução brasileira para o penteado na moda da época: cabelo dividido ao meio, com volume na região das orelhas e preso em coque. Daí achei essa foto de 1850 que bem poderia ser de Emma:

bados

Todas as imagens de: OMG! That Dress e vestidos dos acevros dos museus MET e V&A

3 opiniões sobre “Estilo Emma Bovary”

  1. Estou lendo Madame Bovary e confesso que tem sido uma leitura difícil. Apesar de gostar do tema e deste tipo de literatura, este livro especificamente, não tem me tirado o fôlego. Porém, com este artigo fiquei empolgada… vou dar mais uma chance pro Flabeurt! rs

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