“Frances Ha” ou Por que eu não concordo com o tal texto dos GYPSY infelizes?

Um monte de amigos meus nas redes sociais replicaram um texto sobre a geração Y que o autor americano chama de Gypsy. Saio publicamente para dizer que achei esse texto ruim e implicante com essa tal geração que todos parecem se descabelar por ela como com todas aquelas teorias apocalípticas de destruição das diferenças pela globalização, ou perda de identidades “verdadeiras” provocada pelo anonimato da Internet, etc.

Pode ser que nos EUA seja assim, que todo mundo se ache maravilhoso e pouco aproveitado, mas o que vejo aqui no Brasil são pessoas muito mais insatisfeitas com as condições absurdas de trabalho que algumas áreas possuem (principalmente as da tal Indústria Cultural), do que uma falsa impressão de que trabalho é só alegrias. Na minha opinião, esse texto, ao invés de propor uma reflexão que busca entender os motivos de tamanha insatisfação com a vida profissional com esses jovens nascidos na década de 80 (convenhamos, nem somos mais tão jovens assim), reforça os padrões antigos, aconselhando a personagem fictícia a se adaptar.

2013-09-15-Geny14

Uso ”jovens” porque acho que, independente da década que você nasceu, a juventude costuma ser um grupo contestador e insatisfeito e, ao mesmo tempo, idealista e sonhador. Os baby boomers cresceram realmente tão pé no chão assim, como diz o autor do texto? Não foram eles que criaram o movimento hippie? Não foram eles que foram os punks? Não foram eles que realizaram todas as primaveras de Maio de 1968? Ora, essa frustração com a realidade é exclusiva da geração Y, então?

Por que, ao invés de apenas criticar a tal Y, não refletir sobre a falta de identificação e engajamento que esses jovens têm com seus empregos e funções, pela desvalorização de suas formações acadêmicas quando recebem salários pífios, quando vão para empresas que não assinam carteira, que não têm planos de carreira? Por que não refletir o desgosto desses mesmos ao constatar que seus chefes fecham contratos milionários com seus clientes, quando nem 5% disso vai para seus bolsos, em detrimento das horas e mais horas de trabalho que dedicam a esses projetos? Será que temos que aceitar essas formas de vida somente porque “trabalhar é assim mesmo”? Ou porque “quem não se esforça, não alcança nada”?

Por que não refletir isso tudo ao assistir ao vídeo de demissão de uma menina que virou um viral:

Por que não refletir se não estamos buscando sucesso de mais e qualidade de vida de menos? Por que não refletir se será necessária uma desaceleração gradual daqui a uns tempos? Será que essa insatisfação e busca por felicidade da tal Y não é um sinal para todo um movimento que vem encaminhando formas de vida, de pensar e agir que ultrapassam questões geracionais? Por que não rever padrões de consumo? Por que não rever padrões comportamentais que fizeram da Y tão “problemática” e que podem piorar as seguintes?

Ao invés de lerem e replicarem esse texto, deveriam assistir ao filme Frances Ha, que faz um retrato bem mais real e menos tendencioso dessa tal juventude que o autor quis descrever nos Gypsys. Esta resenha da Carta Capital é bem bacana para refletir sobre esse texto, assim como o artigo da Martha Medeiros publicado originalmente na revistado Globo.

Still from Frances Ha

Com reflexões menos tendenciosas e raivosas, cheias de implicâncias de gerações para outras, poderíamos dar um destino diferente para a Y. Ao invés de envelhecer reforçando e até piorando o mundo que tanto desgostavam – como fizeram os baby boomers, genericamente falando – poderíamos, a partir desses tantos incômodos, transformar nossas realidades não em sonhos, idealizados; nem em felicidade absoluta (tipo novela das 7), mas em lugar menos apocalíptico para cada geração próxima.

2 opiniões sobre ““Frances Ha” ou Por que eu não concordo com o tal texto dos GYPSY infelizes?”

  1. Os Y ao se alienarem da política, aceitarem a ditadura do politicamente correto sem crítica alguma embalados pela midia dos baby boomers, selfies totalmente, não podem agora reclamar de falta de condições de trabalho e salários dignos, pois ajudaram a construir tal realidade atual.

  2. gostei muito do seu texto… quando comecei a ler o tal sobre a geração Y, já identifiquei, isso não é para a realidade brasileira.. muito americanóide. e, outra coisa, não se explica facilmente uma fórmula para a felicidade…

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