A pequena tirana e Os Mutantes

Quando eu era pequena, tinha dois vizinhos que ficaram meus amigos no meu aniversário de 5 anos. Nessa época, meus únicos amigos, que eu me lembre, eram dois primos da mesma idade. Eu era uma pequena tiranazinha, a filha MUITO caçula de pais mais velhos. A “temporã”. Eu tinha um gênio complicado e era muito brava. Era não, sou. Mas um episódio me fez ter pavor desse meu defeito. Senta que lá vem a história:

Sintam a minha vibe infantil
Sintam a minha vibe infantil

Como eu não era acostumada a ter que a me adaptar ao jeito dos outros brincarem, aquele casal de irmãos me irritava demais. Eles me contrariavam? Eu berrava com eles e expulsava de casa no maior estilo vilã de novela.

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Eu, pequena bronquinha

Um dia, minha mãe – que é igualmente brava e a Rainha da Justiça – disse que eles não voltariam mais lá em casa porque eu os tratava muito mal. Lembro dela falando, com a dureza sincera e necessária de mãe escorpiana, que se eu tratasse mal as pessoas, ninguém iria gostar de mim. Obviamente, eu peitei ela e disse que não me importava. Desconfio que ela combinou com a mãe deles que eles ficariam sem ir lá até eu pedir desculpas. Só sei que eles ficaram muito tempo sem aparecer, meses.

Eu era uma criança solitária, com irmãos adultos. Quando eu não aguentava mais brincar de Playmobil sozinha e ver 20.000 vezes “A Noviça Rebelde”, perguntei pra minha mãe como fazer pra eles voltarem e ela explicou que eu tinha que pedir desculpas e não trata-los mais assim. Vencido meu orgulho, reatei a amizade. Eles foram companheiros de muita diversão por anos e anos. Hoje em dia, seguimos nossas vidas em cidades diferentes, mas ainda nos falamos.

Essa historinha toda foi para falar que o nosso jeito vai definir muito como somos vistos pelas pessoas. Por comodidade, fingimos não nos importar muito com isso porque, em geral, temos aquele círculo de parentes ou amigos que não se importam com nossas malices. Mas não podemos sentar em nossos defeitos. A eterna avaliação e consciência das nossas atitudes é um exercício doloroso, mas indispensável para o nosso bem-estar e o dos outros.

Eu ainda sou a pequena mimada e muito brava, mas eu luto todo santo dia para não ser assim porque não quero afugentar as pessoas, ser conhecida por ser desagradável. Eu sou grosseira e quase morro quando esse meu lado fica descontrolado. Quando sou impaciente com as pessoas que eu amo (meus pais, irmãos, sobrinhos, primos, tios, amigos…), quando sou crítica demais com os outros, quando fico sarcástica e implicante por me sentir rejeitada.

É sempre muito difícil pra mim, até porque o meu oposto para a grosseria é a piada – o que não ajuda em nada, na maioria das vezes. Mas, nunca é tarde para mudar em busca de algo melhor. Eu não quero ser o motivo para o choro alheio. É piegas, eu sei. Mas é um bem que fazemos aos outros e a nós. Se eu não tivesse mudado na infância, teria tido uma infância tão legal como tive?

A lição da minha mãe pode ter sido dura pra uma menina de 6 anos. Mas foi muito eficaz. Se a gente não se importa com o que fazemos com as outras pessoas, elas se afastam de nós. E a solução pra isso não é achar pessoas que não se importam em ser mal tratadas. Ou pior!!! Achar quem te maltrate ainda mais, para acabar com seu ego. Mas sim mudar o jeito – ou pelo menos tentar. Admitir os defeitos, aceita-los, mas não nos acostumarmos com eles, nem achar que os outros podem lidar com eles sem chateação.

Sou longe de ser um modelo, uma pessoa iluminada. Mas eu tento melhorar, eu juro!

A velha desculpa de gênio difícil e esquisitice não seria um bloqueio emocional para afastar quem vê o nosso lado bom, e não esse tal monstrinho interno? Não sei. Só queria mesmo levantar essa bola – ainda mais nesses nossos dias de brigas e intolerâncias de eleição, corações partidos e pela falta de empatia.

E a palavra mudança combina com: humildade, “eu errei”, desculpa. Né não?

Termino com a Tulipa Ruiz. Ela diz “cuida bem da tua forma de ser. Amanhã o dia vai ser diferente doutro dia”. Acho que ela não nos manda ser sempre do mesmo jeito, mas sim cuidar muito de como somos. Manter e valorizar aquilo que é bom, tentar melhorar os defeitos. Porque nunca sabemos o dia de amanhã. “E no fundo, bem no fundo, você sabe como isso é legal: ter alguém que entenda essa sua transição”.

Vamos transitar, transmutar, transmitir, transformar. Tipo mutante! Porque como ensina o mestre de todas as horas Lulu Santos, “tudo muda o tempo todo no mundo. Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo. Agora, há tanta vida lá fora”. Bora viver de boa?

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