Arquivo da categoria: Culturete

Biblioteca Bainha: “Parc Royal – Um magazine na Belle Époque carioca”

Como comentei na fanpage do Bainha no Facebook (não curtiu ainda? clique aqui!), no início de agosto eu fui à Reunião Brasileira de Antropologia, congresso que reúne antropólogos e pesquisadores do Brasil todo, e onde apresentei um trabalho sobre minha pesquisa (em andamento) sobre o Pinterest que realizo no Mestrado. No meu Grupo de Trabalho na RBA, conheci a Marissa Gorberg e sua pesquisa muuuuito legal sobre o Parc Royal, loja de departamentos que existiu no Rio de Janeiro entre final do Século XIX e início do XX. Assim como eu, ela também apresentou no GT sua pesquisa que, no caso, realizou para o Mestrado em História, Política e Bens Culturais, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas. Durante a sua apresentação, eu e os outros participantes do GT ficamos encantados com as inúmeras fotografias da época e material publicitário que ela nos mostrou.

Como o tempo das apresentações é curto, imagino que o que ela nos mostrou não seja nem 1/3 de todo o material que ela reuniu. Só o que vi e a história que ela contou já me bastaram para ficar maravilhada. Mas para quem ficou curioso como eu, a boa notícia é que a dissertação deu origem a um livro,  “Parc Royal – Um magazine na Belle Époque carioca”, lançado pela editora G. Ermakoff Casa Editorial. 

1571345

A Parc Royal foi inaugurada em 1873 e loja mais expressiva foi o grande magazine que ocupava um quarteirão no Largo de São Francisco, no centro do Rio. Em 1943, um incêndio a destruiu completamente. A loja não foi a primeira a trazer o modelo de departamentos para a cidade – a pioneira foi a Notre Dame de Paris. Mas a Parc Royal foi maior e mais luxosa e, além da grande loja do Lgo. de São Francisco, possuía uma filial na Av. Central (atual Rio Branco), e duas outras, em Belo Horizonte e Juiz de Fora (MG). Esse tipo de comércio surgiu no final do Século XIX e já era muito popular na Europa, com nomes que até hoje existem como a Harrods e a Selfridges (esta inaugurada em 1909) em Londres, e a Printemps em Paris.

Loja do Largo de São Francisco
Loja do Largo de São Francisco
Seção de chapéus femininos da Parc Royal
Seção de chapéus femininos da Parc Royal
Anúncio da loja
Anúncio da loja

Ainda não li o livro, mas pela sua apresentação, a história do magazine contextualiza uma reflexão sobre aspectos da cultura da época, como as mudanças que aconteciam no Rio na época, a indumentária do período, diferentes formas de consumo que surgem na época, o papel da mulher, publicidades e imprensa da época, etc. Achei super relevante até porque desconhecia a história da loja. Infelizmente, quando estudamos Moda no Brasil, raramente se fala de forma aprofundada dessas lojas – na maioria das vezes são apenas mencionadas (Sears, Mapin, etc). O foco fica nas tecelagens e estilistas, mas o varejo também foi importante para a história da moda e – mais ainda – do consumo no Brasil. Não só isso, mas, como Marissa mostra no seu livro, serve de pano de fundo ou de exemplo muito rico para contar diversas histórias de uma cidade, de uma época. Parabéns pela pesquisa!

Anúncios

Amores distímicos

Um tempo atrás, escrevi esse texto sobre pessoas da minha geração que – apesar da modernidade das relações – acabavam tendo uma visão muito romantizada da vida amorosa/sexual. Elas pulam de galho em galho, mas apesar da variedade e movimentação de dates, sentem um certo vazio “inexplicável”. 

Hoje, uma amiga veio me mostrar esse outro texto de um rapaz. Gostei do blog dele e adoro homens que se prestam a falar da vida amorosa com sinceridade. Adoro ver o lado deles porque acho que estamos todos no mesmo barco. Nele, o rapaz pergunta onde estão as pessoas interessantes? Diz que vem passando por um limbo de desinteresse para se abrir para novas pessoas, do velhinho do ônibus às meninas que tem saído ultimamente. Apesar de reconhecer que anda desanimado, ele se pergunta onde estão as pessoas interessantes e interessadas “em se conectar de verdade”. 

Quando li esse texto, lembrei imediatamente desse meu, onde cito um outro do Ivan Martins, da Época e fiz esse debate de nós três na minha cabeça. O rapaz do site é um caso – a meu ver – desses que está esperando pelo o que nunca virá. Não consigo imaginar como é possível que entre as 10 meninas que ele disse que saiu NENHUMA tenha despertado o interesse dele. Será que andamos tão desinteressantes assim ou sim desinteressados nos outros?

Opções de mais?

Aproveito para citar um comentário do texto de uma das leitoras que disse exatamente o que pensei e gostaria de falar para esse amigo desanimado. Ela diz:

“Já pensou no tanto de gente interessante q perde o interesse por quem anda nessa apatia? Eu tô nessa… Conheci um cara mto interessante, mas q tá num momento em q por mais q eu puxe, ele não sai desse limbo. Talvez eu não seja interessante pra ele ou talvez ninguém o seja… Parece q as pessoas esperam sempre q a próxima história já chegue arrebatando, virando tudo de cabeça pra baixo, qndo na verdade tudo é uma questão de se permitir conhecer e ser conhecido além da primeira impressão de um Tinder da vida”.

Guardem essa informação para a minha exposição depois. Guardem e juntem com mais esta: Há um tempinho atrás, as amigas queridas do GWS escreveram um texto nos moldes “Ele não está a fim de você”, incentivando nós meninas a desencanar daquele bofe que não tá nem aí pra gente.

Temos o post do menino + comentário + post do GWS e agora guardem mais essa: o filme “Elizabethtown”. AMO esse filme porque sempre me identifiquei muito com a Claire, personagem feminino principal. Eu e meia mundo de meninas. Sou muito sincera e falante, como a Claire. É um defeito, aliás, que acaba assustando muita gente. Mas sou legal pra caralh… ok????

Mas aqui quero falar do personagem do Orlando Bloom. Ele é um cara no limbo amoroso. Distímico é pouco, ele quer se matar porque se acha um fracasso. E encontra uma menina como a Claire. Já viram? Então vejam.

tumblr_lj9assMI1V1qzyd2oo1_500

Bom, voltando ao post do GWS, na época, comentei no texto das meninas que é importante marcar e ressaltar que tem muita gente por aí que não quer nada nem com você, nem com ninguém. Estão perdidos, não sabem o que querem, não se satisfazem com nada. Parecem que vivem uma distimia amorosa – uma insatisfação crônica. E sofrem! Podem não admitir e fingir que não, mas sofrem.

A solução é tentar puxar o outro do limbo? Como disse a menina do comentário que citei, por mais que tentamos puxar a pessoa, nem sempre a pessoa quer. Aliás, esse puxão pode ser interpretado como mala, desespero, carência, incômodo! 

Assim, vamos desperdiçando gente legal de bobeira. Como ela disse também, a vida vai parecendo o Tinder, que com uma passada de dedo, você bota a galera para escanteio. Mas é culpa do Tinder ou ele apenas captou um comportamento já presente na sociedade? Isso é papo pra pesquisa que não quero tratar aqui.

tumblr_lyf61yua8p1qb4hjxo1_500

Junto com esse limbo, com esse humor amoroso distímico, existe a (falsa?) sensação de que há muitos peixes aí no mar dando bobeira e disponíveis para nós. O cara ou a menina até podem sair com uma pessoa legal pra caramba, papo bom, beijo bom, gosto parecido, sexo excelente…. Mas o cara (ou a menina) pode pensar: “poxa, postei uma foto no meu Instagram e 40 meninas(os) curtiram! To por cima da carne seca! Por que concentrar a atenção naquela menina legal, se posso testar as outras e ver se tem uma ainda mais legal?”. Temos aí a famosa rodada de prato.

Alguns se satisfazem com essa variedade, querem pegar todo mundo mesmo. E tão no direito deles, né gente? Homens e mulheres. Mas nem todo mundo é assim. Tem gente que procura a conexão, que o garoto do post diz. Mas precisamos estar abertos pra ela, né?

Esse limbo pode ser decorrente de várias decepções seguidas. É difícil andar por esse terreno bizarro das relações hoje em dia, seríamos nós uma geração em transição e, por isso, perdida? Não sei, se alguém souber, ajuda.

O que eu sei é que sempre acredito em duas coisas:

1- Não fazer com o outro aquilo que não quer que façam com você. Sejamos honestos e respeitosos. PRINCIPALMENTE na hora de dar um fora. 

2- Tô com o Lulu Santos SEMPRE.Sou gente fina, elegante e sincera, com habilidade pra dizer mais sim do que não. Vamos nos permitir, gente. Porque hoje o tempo voa. O avião voa, cai, a gente morre. A vida passa, gente legal passa e nem sempre a fotinha que vem depois no Tinder vai ser tão legal. E a pessoa descartada pode nunca mais voltar 🙂

Aprendemos com Claire e Drew de Elizabethtown!

Vamos conectar, de date ao casamento, o que importa é estar aberto pras coisas boas!

PS.: Para o menino que escreveu o post, caso ele leia o meu, tenho zilhões de amigas solteiras interessantes PRA CARAMBA. Confia!

PS2.: Esse post é dedicado ao último filho do limbo que me conheceu, mas me deixou passar. Lamento 🙂

A milésima volta do Bainha

Tem alguém sumido aí?

Criei o Bainha em 2007 e, desde então já sumi e abandonei o blog inúmeras vezes. Talvez por isso ele nunca tenha virado fonte de renda ou famoso, mas é porque a vida demanda muitas coisas da gente, né?

Dessa vez, foi o Mestrado e a vida acadêmica em geral que me fez afastar. Como pesquiso Consumo e Internet no curso de Mestrado em Antropologia que faço, entrei com uma paranoia que escrever aqui poderia me trazer problemas. Poderiam confundir o que falo aqui com alguma pretensão de artigo acadêmico, etc. Daí fui ficando com medo de escrever, foi me tolhendo as ideias, a liberdade. E blog é para ser livre, né? Pelo menos na sua origem, era. Mas sempre bom dizer, NADA AQUI é acadêmico, é científico, pelamordedeus!

Além disso, o tempo foi ficando cada vez mais escasso, a quantidade de coisas para ler e fazer maior.

Mas não aguentei de saudade. Voltei! Alguém ainda me lê?

Para fazer as pazes com a blogolândia, resolvi trazer o que me tomou as ideias para cá e também quebrar a paranoia com o mundo acadêmico x blog e abordar justamente o assunto que pesquiso, que é o Pinterest. Já falei dele várias vezes aqui, antes e depois do Mestrado. Não quero falar sobre as coisas que pesquiso por lá, o que já descobri, nada. Socorro, já faço isso escrevendo artigos, papers para congressos, etc.

Mas, por conta disso, muita gente vem me falar que tem perfil, mas não sabe usar o site – apesar de ter vontade. Então para ajudar quem tem vontade de usar o site, mas não sabe como, um breve GUIA DO PINTEREST!

GUIA PARA USAR O PINTEREST ATIVAMENTE:

1- Você precisa de um perfil: quando você entra no Pinterest pela primeira vez, a primeira tela que vai ver é esta abaixo. Eu criei o meu perfil a partir do Facebook. Ele vai puxar seus contatos lá e você pode escolher se vai seguir o Pinterest deles ou não. Mas no Pinterest, o lance é seguir perfis que postam imagens que você gosta, não precisa ser amigo da pessoa na “vida real”. Dos 233 perfis que eu sigo, imagino que só 10% deve ser de amigos “reais”.

página inicial 12.05.14

O site criou esse vídeo abaixo para explicar o que ele é. Como pesquisadora, vejo que eles focam muito os usos do site na sua parte prática, como um lugar para buscar inspiração para projetos, compras, viagens. Mas o vídeo é bacaninha:

2- Criando painéis (ou boards): Depois de criar o perfil, o Pinterest vai fazer um tour com você mostrando como é o site. Explicam, por exemplo, o que é um pinPin é o que é postado nos perfis do Pinterest. São imagens que você escolhe para estar ali. Elas são guardadas no seu perfil em painéis que você cria de acordo com suas preferências. O Pinterest sugere alguns temas de painéis para você criar:

começo pinterest 08.01.14 III

Mas você pode criar o painel que quiser. Tem perfis, como alguns que acompanho, que possuem mais de 200 painéis. Sim, duzentos! Faça quantas categorias sua imaginação mandar. Mas se você criar muitos painéis, com temas muuuito próximos e específicos, pode ser que, na hora de navegar pela sua timelineonde aparecem os pins dos perfis que segue, você tenha alguma dificuldade de classificar as imagens que queira pinar.

Os painéis que eu criei foram os seguintes:

meu perfil 31.07.14

3- Sigam-me os bons! Depois de decidir que tipo de foto você quer colecionar, pode escolher os perfis que vai seguir. O site vai te sugerir alguns com base no que você selecionou aí nos painéis. Nessa hora que vocês podem me seguir lá clicando aqui!

Na foto aí de cima, à direita, vocês podem ver minha foto e um balãozinho vermelho. Ali são as notificações que a gente recebe: quem repinou seus pins e quem começou a te seguir, por exemplo. Por causa da correria da pesquisa, não presto muito atenção nessa parte. Mas não se assustem, tem um monte de gente que você nunca viu na vida te acompanhando. É normal, o que importa é a troca de imagens e, além disso, o Pinterest é um território internacional, você troca fotos com gente do mundo todo (principalmente americanos).

4- Timeline e procurando imagens: Depois de decidir quem vai seguir, as fotos que essas pessoas pinam vão aparecer na sua timeline, que parece mesmo um mural de cortiça. É confuso gente, mas vocês se acostumam. Para vem uma foto maior, basta clicar nela. Quando ela abre maior, você pode no canto superior esquerdo o botão de PIN, o CURTIR e um botão que leva ao link original de onde a foto veio (o site de origem). Quando você curte uma foto, ela não vai para o seu perfil. Raramente as fotos são curtidas, o lance é pinar.

Do lado direito da foto, podemos ver ao lado direito mais imagens que a pessoa tem em seu álbum. Se rolar a barra para baixo, você verá o que o Pinterest colocou como “pins relacionados”. Cuidado, é fácil se perder nessa imensidão de imagens!!!

pin fashion 31.07.14

De volta à sua Timeline, no canto superior esquerdo do site você vai ver  o espaço para busca e um botão que leva a um menu que vai mostrar todas as categorias de pins que o site cria. Nesse menu também tem a categoria Popular. Essa categoria, às vezes, tem fotos digamos… polêmicas. Não deveria falar isso como pesquisadora, mas somos todos humanos: às vezes aparecem fotos muito cafonas. Quase nunca utilizo esse menu. Mas utilizo muito a busca para procurar cortes de cabelo, por exemplo. A dica é escrever em inglês, já que a maior parte dos usuários ainda é americana.

começo pinterest 08.01.14 IV

Bom, sem mais delongas e acho que ajudei a ensinar o básico de como usar o site, né?

Aproveitem e até o próximo post! (Próximo mesmo!!!! :D)

“Frances Ha” ou Por que eu não concordo com o tal texto dos GYPSY infelizes?

Um monte de amigos meus nas redes sociais replicaram um texto sobre a geração Y que o autor americano chama de Gypsy. Saio publicamente para dizer que achei esse texto ruim e implicante com essa tal geração que todos parecem se descabelar por ela como com todas aquelas teorias apocalípticas de destruição das diferenças pela globalização, ou perda de identidades “verdadeiras” provocada pelo anonimato da Internet, etc.

Pode ser que nos EUA seja assim, que todo mundo se ache maravilhoso e pouco aproveitado, mas o que vejo aqui no Brasil são pessoas muito mais insatisfeitas com as condições absurdas de trabalho que algumas áreas possuem (principalmente as da tal Indústria Cultural), do que uma falsa impressão de que trabalho é só alegrias. Na minha opinião, esse texto, ao invés de propor uma reflexão que busca entender os motivos de tamanha insatisfação com a vida profissional com esses jovens nascidos na década de 80 (convenhamos, nem somos mais tão jovens assim), reforça os padrões antigos, aconselhando a personagem fictícia a se adaptar.

2013-09-15-Geny14

Uso ”jovens” porque acho que, independente da década que você nasceu, a juventude costuma ser um grupo contestador e insatisfeito e, ao mesmo tempo, idealista e sonhador. Os baby boomers cresceram realmente tão pé no chão assim, como diz o autor do texto? Não foram eles que criaram o movimento hippie? Não foram eles que foram os punks? Não foram eles que realizaram todas as primaveras de Maio de 1968? Ora, essa frustração com a realidade é exclusiva da geração Y, então?

Por que, ao invés de apenas criticar a tal Y, não refletir sobre a falta de identificação e engajamento que esses jovens têm com seus empregos e funções, pela desvalorização de suas formações acadêmicas quando recebem salários pífios, quando vão para empresas que não assinam carteira, que não têm planos de carreira? Por que não refletir o desgosto desses mesmos ao constatar que seus chefes fecham contratos milionários com seus clientes, quando nem 5% disso vai para seus bolsos, em detrimento das horas e mais horas de trabalho que dedicam a esses projetos? Será que temos que aceitar essas formas de vida somente porque “trabalhar é assim mesmo”? Ou porque “quem não se esforça, não alcança nada”?

Por que não refletir isso tudo ao assistir ao vídeo de demissão de uma menina que virou um viral:

Por que não refletir se não estamos buscando sucesso de mais e qualidade de vida de menos? Por que não refletir se será necessária uma desaceleração gradual daqui a uns tempos? Será que essa insatisfação e busca por felicidade da tal Y não é um sinal para todo um movimento que vem encaminhando formas de vida, de pensar e agir que ultrapassam questões geracionais? Por que não rever padrões de consumo? Por que não rever padrões comportamentais que fizeram da Y tão “problemática” e que podem piorar as seguintes?

Ao invés de lerem e replicarem esse texto, deveriam assistir ao filme Frances Ha, que faz um retrato bem mais real e menos tendencioso dessa tal juventude que o autor quis descrever nos Gypsys. Esta resenha da Carta Capital é bem bacana para refletir sobre esse texto, assim como o artigo da Martha Medeiros publicado originalmente na revistado Globo.

Still from Frances Ha

Com reflexões menos tendenciosas e raivosas, cheias de implicâncias de gerações para outras, poderíamos dar um destino diferente para a Y. Ao invés de envelhecer reforçando e até piorando o mundo que tanto desgostavam – como fizeram os baby boomers, genericamente falando – poderíamos, a partir desses tantos incômodos, transformar nossas realidades não em sonhos, idealizados; nem em felicidade absoluta (tipo novela das 7), mas em lugar menos apocalíptico para cada geração próxima.

The kids aren’t alright

Peço licença ao Offspring por roubar o título da música deles para dar título a este novo post. Tenho um amigo no Facebook que me rende ótimas referências, o Samuel. Foi por um post dele que vi também a garota duas-caras de Berlim. Não o encontro há anos, mas caso ele passe por aqui, valeu Samuel!

O post de hoje dele foi essa maravilha de tumblr chamada Ugly Renaissance Babies, que reúne bebês e crianças beeeem estranhas encontradas em quadros e esculturas renascentistas (e também medievais, me corrijam os historiadores da arte presentes). Sério, chorei de rir. Mesmo com todo o ideal de simetria que os renascentistas tentavam pegar emprestado dos antigos gregos, o negócio dava ruim às vezes.  Eu AMO crianças, mas sou daquelas que não consegue achar todas bonitinhas só pelo fato de serem crianças. Então esse tumblr faz um ótimo complemento a algumas fotos que os amigos do Facebook estão colocando por conta do 12 de outubro. O tempo foi um pai para alguns, affemaria…

O tumblr também mostra algumas situações estranhas que passavam pelas cabeças dos pintores. Papo brabo tipo homem adulto mamando no peito da mãe e querubins abrindo a poupança de alguma moça (nem postei aqui para não me dar problema com wordpress). TENSO.

Abaixo, uma seleção dos melhores (ou piores) bebês renascentistas. Eu sei que a maioria dos quadros representam Nossa Senhora e o Menino Jesus, mas esqueçam disso, ok? Não quero ofender a religião de ninguém, até porque é a que eu fui criada também. Pensem apenas na representação imagética de tudo (aliás, se eu fosse Jesus, ficaria ofendidíssimo! Esses pintores só podiam ser ateus!)

tumblr_mm4mnwnKeh1r6f0d9o1_500

tumblr_mpj3wcR6X41r6f0d9o1_500

tumblr_mtbwig9Ed81r6f0d9o1_500

tumblr_mcplefqrQx1r6f0d9o1_500

Picasso? A garota “duas caras” de Berlim

Salve o Facebook e os compartilhamentos de amigos inteligentes!

Um postou uma matéria gringa sobre um artista alemão, Sebastian Bieniek, que fez uma série de fotografias de uma garota na capital germânica brincando de ilusão de ótica. Ao desenhar um rosto (ou dois) no da moça, dá a ilusão de uma figura meio cubista à la Picasso, ou de duas caras. O nome da série é Doublefaced. 

sebastianbieniekdoublefaced1

sebastianbieniekdoublefaced3

sebastianbieniekdoublefaced5

sebastianbieniekdoublefaced7

sebastianbieniekdoublefaced9

Fotos: Sebastian Bienik

A mensagem visualizada e o terror das redes sociais

Aviso: Este post não é acadêmico, é “apenas” um post de um blog pessoal.

Não estranhem o aviso acima. Como disse no post anterior, estou com paranoia de darem um google no meu nome por causa do mestrado, acharem o blog e acharem que o que é dito aqui é artigo. Uma hora eu me acostumo e me solto de novo.

Por falar em mestrado, estou estudando pesquisas de antropólogos cujo campo é o “ciberespaço”. No meio de um monte de controversas de um campo tão novo, já percebi uma divisão: pesquisas apenas sobre o uso da Internet pelas pessoas e sobre a sociabilidade na rede, as relações entre os usuários. Ou se pensam também na agência da máquina, na influência dos mecanismos dos programas da Internet, por exemplo, no comportamento das pessoas ao usarem.

Ok, fui confusa, né? Mas essa introdução foi apenas para falar do quiprocó que o Facebook jogou no colo dos seus usuários ao lançar, sem aviso prévio, o mecanismo de mostrar quando uma mensagem inbox foi visualizada. Dedurou todo mundo.

1157413_738143609536083_82548489_n

Essa ferramenta pode dar uma certa segurança na questão muito recorrente na comunicação que é a da mensagem não chegar ao destinatário. Imagino quantas moças sofredoras podem ter ficado a vida toda em dúvida se o rapaz com quem se correspondia por cartas recebeu mesmo a bendita, mas não respondeu, ou se ela foi extraviada. Ó, drama cruel. Com essa ferramenta, o Facebook nos livra dessa dúvida.

Porém, nada nessa vida é fácil e tranquilo, por isso esse aviso, tão bem intencionado (ou não), criou mais uma forma de mal-estar na civilização. É a agência da máquina, que falei lá em cima, mudando a nossa. O uso da internet é cheio de etiquetas, como tudo na vida em sociedade. Não tem jeito, se quer sair disso, vira um monge solitário nas montanhas. Mas que é um saco, é.

Poxa, onde está a minha privacidade de não poder ou querer responder imediatamente a uma mensagem? Para não ser indelicada, eu nem abro a mensagem se não posso respondê-lana mesma hora. Ou respondo: “daqui a pouco te respondo com calma”.

Mas não posso esperar que todos sejam educadinhos para a sociabilidade virtual como eu. Nem todo mundo entende que as relações ali, no Facebook, são extensões do que somos fora. SIM, tem gente que AINDA não entendeu isso. Ou se recusa. Isso, pessoalmente, me irrita, esse estar, mas não estar nos ambientes online. Desculpem amigos, vivemos em grupo, precisamos ser diplomáticos e nos relacionar bem com o próximo. Como disse, se não quer dever nada a ninguém, as cavernas isoladas da montanha estão sempre às ordens.

Mas não estou sozinha nessa irritação. Não cobramos resposta imediata, na loucurinha da rapidez da vida pós-moderna, tudo pra ontem. Porém é frustrante ver que alguém viu sua mensagem, ignorou e está lá postando e curtindo coisas (porque o Facebook também nos avisa isso).

Assim, você pode macular feio uma relação de amizade, trabalho, amorosa, familiar. Mas, quem está errado, aquele que fica bravo com a não-resposta ou aquele que comete essa nova forma de gafe porque não consegue ver o problema de se fazer isso? Eu voto pelo meio termo: não precisa surtar, mas também é preciso se adaptar às novas ferramentas que aparecem aí para evitar o conflito, não é mesmo? Enquanto o Facebook não retirar esse aviso como fez o Whatsapp, vamos ter que lidar com isso, amigões.

Ou sai do Facebook, olha que coisa revolucionária?

visualizada em

Genótipo e Fenótipo

Vi uma matéria no site da National Geographic (perdi o link, infelizmente), que o fotógrafo Martin Schoeller registrou gêmeos idênticos (univitelinos) com a mesma luz, etc. Muito interessante como, mesmo possuindo o mesmo DNA, é possível distinguir algumas características físicas dos irmãos. Acredito que o tempo, o estilo de vida de cada um, etc; acaba construindo novas faces e esse trabalho vem para mostrar que é impossível ter alguém igual a você no mundo, mesmo com o mesmo genótipo. Ver as fotos com atenção é quase um jogo dos 7 erros:

01-johanna-eva-gill

1672590-slide-martacroll-baehre-emmacroll-baehre

1672590-slide-natemueller-kirkmueller

  1672590-slide-aidankey-brendabowers O fotógrafo encontrou, inclusive, um caso em que uma das irmãs é trangênero: Aidan Key (que nasceu Bonnie Bowers) e Brenda Bowers.

1672590-slide-breannaginley-adalynnginley

1672590-slide-marilynelder-carolynbridges

1672590-slide-richardbowen-davidbowen

Estilo Emma Bovary

Como disse no post passado, li o clássico de Gustave Flaubert, Madame Bovary, para meu curso de mestrado. Eu e a maioria das pessoas tendemos a ficar imaginando como seriam os personagens dos livros que lemos, correto? Para alguém que ama história da indumentária/moda como eu, esse exercício imaginativo se estende às roupas também.

Ainda mais numa história como esta: para quem não sabe, Emma Bovary, uma pequena burguesa nascida no campo, se deslumbra com as possibilidades de coisas que ela pode consumir quando se casa com Charles Bovary, um médico do interior da França. Sua perspectiva idealizada da vida, principalmente quanto ao que ela consumia, usava; acabam levando a um final digno de tragédia grega. Trata-se de uma versão mais trágica e menos besta daquela história da Becky Bloom – para ilustrar BEM mal e porcamente, me perdoe Flaubert!

Não vou me ater muito a essas questões neste post porque não é o objetivo aqui, mas para quem se interessar, além do próprio romance, indico o artigo da minha orientadora, Laura Graziela Gomes, Madame Bovary ou o consumo moderno como drama social, presente no livro Cultura, Consumo e Identidade (Ed. FGV, org. Livia Barbosa e Colin Campbell); e tambémo livro do sociólogo americano Colin Campbell: A Ética Romântica e o Espírito do Consumismo (Ed. Rocco – anda esgotado, mas procurem!).

O que eu queria mesmo fazer é alimentar nossa imaginação pensando como Emma se vestiria, a partir dos meus conhecimentos da indumentária da época do livro. Flaubert quase não descreve suas roupas – que pena! – mas a partir do ano em que o livro foi lançado, podemos ter uma ideia: 1857.

A maioria dos historiadores da Moda que eu estudei (principalmente o James Laver em A Roupa e a Moda) divide o Séc. XVIII nas seguintes épocas: 1800 a 1850 (estilo Império do reinado de Napoleão, depois o período do Romantismo), e entre 1850 e 1900 – com destaque para a Era Vitoriana e a Belle Époque (posso me alongar nisso depois, um dia quem sabe? Aliás, estou dando aulas de História da Moda, aliás!). Vale lembrar que, neste período a moda não mudava TÃO loucamente rápido como agora, ok?

Emma Bovary, portanto, viveu a transição do estilo romântico (mangas presunto imensas, decotes canoa que deixavam os ombros caídos, ar frágil) e a década seguinte, onde o fortalecimento da classe burguesa na Inglaterra e na França levou a uma maior sofisticação na moda e ornamentação na roupa feminina.

Achei muitas imagens, mas travei uma guerra aqui: seriam suas roupas mais escuras (porque austeras e simples) no início e mais claras quanto mais dramática, romantizada sua vida ia ficando? Ou o contrário? Voltei ao livro para procurar pistas e Flaubert cita uma capa de viagem preta e pensando também no lado sombrio do romantismo, então fiquei com a segunda opção. Como Emma, no início da história, é uma mulher mais contida em seus impulsos consumistas, imagino que pudesse usar roupas mais simples, para o dia  (vestidos de 1843 a 1850, do acervo do MET):

1843 met museum 1845-49 MET

1845-50 Met

A partir da década de 50 deste século, como disse a burguesia se destaca e o seu poder de consumo aumenta, mesmo a pequena burguesia. Emma se deslumbra e quer sempre o melhor, almeja as novidades que vêm de Paris. Uma das principais características da moda dessa época é o uso da crinolina: anágua de tecido engomado feito de fibra de pelo de cavalo sobre uma gaiola, que dava um volume imenso à saia. Como ilustra a imagem abaixo, que é de 1860, mas ilustra bem o auge do volume das saias (a mulher foi aprisionada no espartilho e numa jaula – literalmente!)

crinolina

E uma cage de 1856:

armação

Provavelmente, apesar de não ser muito preocupada com dinheiro, Bovary não tivesse bala na agulha, d’argent, para tamanha extravagância (da primeira foto). Mas podemos pensar em vestidos mais sofisticados para a metade do livro em diante. Investia em tecidos mais nobres como veludo, tafetá, cetim, mousseline, mandava trazer rendas e acessórios:

1857-60 met

1845-49 met 1845-50 MET 1851-53 met  1859 met

Esse seria bem propício para Emma (do comportado ao mais “livre”):

1858 met

Já para suas viagens, que tal:

tumblr_mftfdiGzm71qcddvlo1_500 capa 1860 MET

Completando, o traje de andar de cavalo que também é mencionado:

Lovers-Morning-Recreation-Sarony-Major-1850

Além dos vestidos, fiquei imaginando como traduzir os badós, tradução brasileira para o penteado na moda da época: cabelo dividido ao meio, com volume na região das orelhas e preso em coque. Daí achei essa foto de 1850 que bem poderia ser de Emma:

bados

Todas as imagens de: OMG! That Dress e vestidos dos acevros dos museus MET e V&A