“Frances Ha” ou Por que eu não concordo com o tal texto dos GYPSY infelizes?

Um monte de amigos meus nas redes sociais replicaram um texto sobre a geração Y que o autor americano chama de Gypsy. Saio publicamente para dizer que achei esse texto ruim e implicante com essa tal geração que todos parecem se descabelar por ela como com todas aquelas teorias apocalípticas de destruição das diferenças pela globalização, ou perda de identidades “verdadeiras” provocada pelo anonimato da Internet, etc.

Pode ser que nos EUA seja assim, que todo mundo se ache maravilhoso e pouco aproveitado, mas o que vejo aqui no Brasil são pessoas muito mais insatisfeitas com as condições absurdas de trabalho que algumas áreas possuem (principalmente as da tal Indústria Cultural), do que uma falsa impressão de que trabalho é só alegrias. Na minha opinião, esse texto, ao invés de propor uma reflexão que busca entender os motivos de tamanha insatisfação com a vida profissional com esses jovens nascidos na década de 80 (convenhamos, nem somos mais tão jovens assim), reforça os padrões antigos, aconselhando a personagem fictícia a se adaptar.

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Uso ”jovens” porque acho que, independente da década que você nasceu, a juventude costuma ser um grupo contestador e insatisfeito e, ao mesmo tempo, idealista e sonhador. Os baby boomers cresceram realmente tão pé no chão assim, como diz o autor do texto? Não foram eles que criaram o movimento hippie? Não foram eles que foram os punks? Não foram eles que realizaram todas as primaveras de Maio de 1968? Ora, essa frustração com a realidade é exclusiva da geração Y, então?

Por que, ao invés de apenas criticar a tal Y, não refletir sobre a falta de identificação e engajamento que esses jovens têm com seus empregos e funções, pela desvalorização de suas formações acadêmicas quando recebem salários pífios, quando vão para empresas que não assinam carteira, que não têm planos de carreira? Por que não refletir o desgosto desses mesmos ao constatar que seus chefes fecham contratos milionários com seus clientes, quando nem 5% disso vai para seus bolsos, em detrimento das horas e mais horas de trabalho que dedicam a esses projetos? Será que temos que aceitar essas formas de vida somente porque “trabalhar é assim mesmo”? Ou porque “quem não se esforça, não alcança nada”?

Por que não refletir isso tudo ao assistir ao vídeo de demissão de uma menina que virou um viral:

Por que não refletir se não estamos buscando sucesso de mais e qualidade de vida de menos? Por que não refletir se será necessária uma desaceleração gradual daqui a uns tempos? Será que essa insatisfação e busca por felicidade da tal Y não é um sinal para todo um movimento que vem encaminhando formas de vida, de pensar e agir que ultrapassam questões geracionais? Por que não rever padrões de consumo? Por que não rever padrões comportamentais que fizeram da Y tão “problemática” e que podem piorar as seguintes?

Ao invés de lerem e replicarem esse texto, deveriam assistir ao filme Frances Ha, que faz um retrato bem mais real e menos tendencioso dessa tal juventude que o autor quis descrever nos Gypsys. Esta resenha da Carta Capital é bem bacana para refletir sobre esse texto, assim como o artigo da Martha Medeiros publicado originalmente na revistado Globo.

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Com reflexões menos tendenciosas e raivosas, cheias de implicâncias de gerações para outras, poderíamos dar um destino diferente para a Y. Ao invés de envelhecer reforçando e até piorando o mundo que tanto desgostavam – como fizeram os baby boomers, genericamente falando – poderíamos, a partir desses tantos incômodos, transformar nossas realidades não em sonhos, idealizados; nem em felicidade absoluta (tipo novela das 7), mas em lugar menos apocalíptico para cada geração próxima.

Dica Bainha: curso de tendências & consumo

Se tem uma coisa que irrita ainda mais meu humor saraiva é o uso da palavra “tendência” impunemente tanto na imprensa tradicional de moda, como nos blogs da vida. “Jeans é tendência”, “Xadrez é tendência”, “Camisa branca é tendência”, bla bla bla bla. Se você também se irrita ou se você vestiu a carapuça e também quer entender melhor as tendências e comportamentos de consumo, tenho uma indicação de curso bacana que será realizado em dezembro aqui no Rio de Janeiro:

Em Culture Lab – Tendências & Consumo, as queridas Carol Althaller e Hilaine Yaccoub vão expor formas diferentes, mas que podem se complementar (e, ao meu ver, é bom que se complementem, aliás) na hora de tentar entender como as pessoas consomem, usam e se apropriam dos objetos/serviços e tentar projetar isso para um futuro. Vão juntar coolhunting com antropologia do consumo. Carol trabalhou por muito tempo no WGSN como editora de conteúdo e hoje está trabalhando em planejamento de marketing para a Coca-Cola Company. A Hilaine é antropóloga, professora na ESPM-RJ e companheira de programa de Antropologia na UFF, onde ela é doutoranda na linha de Antropologia do Consumo.

Serão seis encontros, de 12 a 18 de dezembro, no SpazioIpanema. Quem ficou interessado, manda email pra culturelabnews@gmail.com

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The kids aren’t alright

Peço licença ao Offspring por roubar o título da música deles para dar título a este novo post. Tenho um amigo no Facebook que me rende ótimas referências, o Samuel. Foi por um post dele que vi também a garota duas-caras de Berlim. Não o encontro há anos, mas caso ele passe por aqui, valeu Samuel!

O post de hoje dele foi essa maravilha de tumblr chamada Ugly Renaissance Babies, que reúne bebês e crianças beeeem estranhas encontradas em quadros e esculturas renascentistas (e também medievais, me corrijam os historiadores da arte presentes). Sério, chorei de rir. Mesmo com todo o ideal de simetria que os renascentistas tentavam pegar emprestado dos antigos gregos, o negócio dava ruim às vezes.  Eu AMO crianças, mas sou daquelas que não consegue achar todas bonitinhas só pelo fato de serem crianças. Então esse tumblr faz um ótimo complemento a algumas fotos que os amigos do Facebook estão colocando por conta do 12 de outubro. O tempo foi um pai para alguns, affemaria…

O tumblr também mostra algumas situações estranhas que passavam pelas cabeças dos pintores. Papo brabo tipo homem adulto mamando no peito da mãe e querubins abrindo a poupança de alguma moça (nem postei aqui para não me dar problema com wordpress). TENSO.

Abaixo, uma seleção dos melhores (ou piores) bebês renascentistas. Eu sei que a maioria dos quadros representam Nossa Senhora e o Menino Jesus, mas esqueçam disso, ok? Não quero ofender a religião de ninguém, até porque é a que eu fui criada também. Pensem apenas na representação imagética de tudo (aliás, se eu fosse Jesus, ficaria ofendidíssimo! Esses pintores só podiam ser ateus!)

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Eu queria ser amiga do Xico Sá

DSC00302Foto: Mercearia São Pedro – SP

Meu maior arrependimento na vida não foi não ter insistido para meus pais me levarem para ver os Mamonas Assassinas na cidade de Resende, vizinha da minha natal Volta Redonda. Nem ter comprado aquele casaco da Adidas caríssimo na Disney porque a Mel C. usava um igual, só que na loja só tinha 3XL (3x extra grande). Até mesmo os arrependimentos de todas as mancadas que eu já fiz com os bofes da vida – principalmente os arrependimentos do que eu deixei de fazer. Eles não são grandes o bastante.

O maior arrependimento na vida foi não ter ido falar com o Xico Sá no dia que o vi na Mercearia São Pedro, em São Paulo.

Em 2009 ou 2010, eu estava bebendo e comendo os famosos pastéis com meus poucos (e bons) amigos de lá, como fazia quase semanalmente na época em que morei na Metrópole da Melancolia, e ele estava no balcão batendo papo. Bêbada, eu até cheguei a gritar “Xico Sá, nós te amamos!”, mas esse grito foi inútil no burburinho das noites da Vila Madalena.

Eu deveria ter sido é cabra fêmea, levantado e ter falado: Xico Sá, você é meu amigo. Imaginário, mas é. Mas não, fiquei travada pelo medo, pela medorréia, como diria o antigo bispo da minha cidade. Amélie Poulain sempre.

Não estou aqui me oferecendo como uma jovem fã se declara em amor platônico todo mal intencionado para um escritor, não! Queria dizer obrigada pelos seus textos fodas, preciso de um amigo como ele.  Imaginem que amigo excelente deve ser o Xico Sá. Imagina o quanto de confusão mental, de lágrimas e de causos estranhos eu poderia ter evitado se eu tivesse um amigo como ele? Um cabra justo.

Me imagino contando as minhas burrices e levando uma chamada. Não é isso não, mulher! Não que meus amigos não sejam ótimos, amo todos eles, mas sinto que ele seria um bom mentor, uma pessoa mais experiente na vida que está aí para te dar uma orientação.  Ok, agora eu tenho uma Orientadora – e eu adoro ela. Mas ela é minha orientadora acadêmica, o Xico Sá poderia ser tipo um mestre jedi.

Seria bom poder contar com o Xico Sá (porque, mesmo com a vontade de ser sua amiga, sou igual o Tim Maia e algumas pessoas merecem ser chamadas pelo nome e sobrenome). Tomar um chopp no Lamas, ele poderia ir nos jantares na casa da Carol (uma das minhas amigas), nos churrascos do Salgado (outro super amigo)… Mas não dá, naquele dia, lááá em 2009, sei lá, na Vila Madalena, eu não fui falar com ele. ficamos só no blog – já tá pra lá de bom!

Mas, se interessar, estamos aí! Garanto que seria uma ótima padawan!

Picasso? A garota “duas caras” de Berlim

Salve o Facebook e os compartilhamentos de amigos inteligentes!

Um postou uma matéria gringa sobre um artista alemão, Sebastian Bieniek, que fez uma série de fotografias de uma garota na capital germânica brincando de ilusão de ótica. Ao desenhar um rosto (ou dois) no da moça, dá a ilusão de uma figura meio cubista à la Picasso, ou de duas caras. O nome da série é Doublefaced. 

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Fotos: Sebastian Bienik

A mensagem visualizada e o terror das redes sociais

Aviso: Este post não é acadêmico, é “apenas” um post de um blog pessoal.

Não estranhem o aviso acima. Como disse no post anterior, estou com paranoia de darem um google no meu nome por causa do mestrado, acharem o blog e acharem que o que é dito aqui é artigo. Uma hora eu me acostumo e me solto de novo.

Por falar em mestrado, estou estudando pesquisas de antropólogos cujo campo é o “ciberespaço”. No meio de um monte de controversas de um campo tão novo, já percebi uma divisão: pesquisas apenas sobre o uso da Internet pelas pessoas e sobre a sociabilidade na rede, as relações entre os usuários. Ou se pensam também na agência da máquina, na influência dos mecanismos dos programas da Internet, por exemplo, no comportamento das pessoas ao usarem.

Ok, fui confusa, né? Mas essa introdução foi apenas para falar do quiprocó que o Facebook jogou no colo dos seus usuários ao lançar, sem aviso prévio, o mecanismo de mostrar quando uma mensagem inbox foi visualizada. Dedurou todo mundo.

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Essa ferramenta pode dar uma certa segurança na questão muito recorrente na comunicação que é a da mensagem não chegar ao destinatário. Imagino quantas moças sofredoras podem ter ficado a vida toda em dúvida se o rapaz com quem se correspondia por cartas recebeu mesmo a bendita, mas não respondeu, ou se ela foi extraviada. Ó, drama cruel. Com essa ferramenta, o Facebook nos livra dessa dúvida.

Porém, nada nessa vida é fácil e tranquilo, por isso esse aviso, tão bem intencionado (ou não), criou mais uma forma de mal-estar na civilização. É a agência da máquina, que falei lá em cima, mudando a nossa. O uso da internet é cheio de etiquetas, como tudo na vida em sociedade. Não tem jeito, se quer sair disso, vira um monge solitário nas montanhas. Mas que é um saco, é.

Poxa, onde está a minha privacidade de não poder ou querer responder imediatamente a uma mensagem? Para não ser indelicada, eu nem abro a mensagem se não posso respondê-lana mesma hora. Ou respondo: “daqui a pouco te respondo com calma”.

Mas não posso esperar que todos sejam educadinhos para a sociabilidade virtual como eu. Nem todo mundo entende que as relações ali, no Facebook, são extensões do que somos fora. SIM, tem gente que AINDA não entendeu isso. Ou se recusa. Isso, pessoalmente, me irrita, esse estar, mas não estar nos ambientes online. Desculpem amigos, vivemos em grupo, precisamos ser diplomáticos e nos relacionar bem com o próximo. Como disse, se não quer dever nada a ninguém, as cavernas isoladas da montanha estão sempre às ordens.

Mas não estou sozinha nessa irritação. Não cobramos resposta imediata, na loucurinha da rapidez da vida pós-moderna, tudo pra ontem. Porém é frustrante ver que alguém viu sua mensagem, ignorou e está lá postando e curtindo coisas (porque o Facebook também nos avisa isso).

Assim, você pode macular feio uma relação de amizade, trabalho, amorosa, familiar. Mas, quem está errado, aquele que fica bravo com a não-resposta ou aquele que comete essa nova forma de gafe porque não consegue ver o problema de se fazer isso? Eu voto pelo meio termo: não precisa surtar, mas também é preciso se adaptar às novas ferramentas que aparecem aí para evitar o conflito, não é mesmo? Enquanto o Facebook não retirar esse aviso como fez o Whatsapp, vamos ter que lidar com isso, amigões.

Ou sai do Facebook, olha que coisa revolucionária?

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Genótipo e Fenótipo

Vi uma matéria no site da National Geographic (perdi o link, infelizmente), que o fotógrafo Martin Schoeller registrou gêmeos idênticos (univitelinos) com a mesma luz, etc. Muito interessante como, mesmo possuindo o mesmo DNA, é possível distinguir algumas características físicas dos irmãos. Acredito que o tempo, o estilo de vida de cada um, etc; acaba construindo novas faces e esse trabalho vem para mostrar que é impossível ter alguém igual a você no mundo, mesmo com o mesmo genótipo. Ver as fotos com atenção é quase um jogo dos 7 erros:

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  1672590-slide-aidankey-brendabowers O fotógrafo encontrou, inclusive, um caso em que uma das irmãs é trangênero: Aidan Key (que nasceu Bonnie Bowers) e Brenda Bowers.

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Estilo Emma Bovary

Como disse no post passado, li o clássico de Gustave Flaubert, Madame Bovary, para meu curso de mestrado. Eu e a maioria das pessoas tendemos a ficar imaginando como seriam os personagens dos livros que lemos, correto? Para alguém que ama história da indumentária/moda como eu, esse exercício imaginativo se estende às roupas também.

Ainda mais numa história como esta: para quem não sabe, Emma Bovary, uma pequena burguesa nascida no campo, se deslumbra com as possibilidades de coisas que ela pode consumir quando se casa com Charles Bovary, um médico do interior da França. Sua perspectiva idealizada da vida, principalmente quanto ao que ela consumia, usava; acabam levando a um final digno de tragédia grega. Trata-se de uma versão mais trágica e menos besta daquela história da Becky Bloom – para ilustrar BEM mal e porcamente, me perdoe Flaubert!

Não vou me ater muito a essas questões neste post porque não é o objetivo aqui, mas para quem se interessar, além do próprio romance, indico o artigo da minha orientadora, Laura Graziela Gomes, Madame Bovary ou o consumo moderno como drama social, presente no livro Cultura, Consumo e Identidade (Ed. FGV, org. Livia Barbosa e Colin Campbell); e tambémo livro do sociólogo americano Colin Campbell: A Ética Romântica e o Espírito do Consumismo (Ed. Rocco – anda esgotado, mas procurem!).

O que eu queria mesmo fazer é alimentar nossa imaginação pensando como Emma se vestiria, a partir dos meus conhecimentos da indumentária da época do livro. Flaubert quase não descreve suas roupas – que pena! – mas a partir do ano em que o livro foi lançado, podemos ter uma ideia: 1857.

A maioria dos historiadores da Moda que eu estudei (principalmente o James Laver em A Roupa e a Moda) divide o Séc. XVIII nas seguintes épocas: 1800 a 1850 (estilo Império do reinado de Napoleão, depois o período do Romantismo), e entre 1850 e 1900 – com destaque para a Era Vitoriana e a Belle Époque (posso me alongar nisso depois, um dia quem sabe? Aliás, estou dando aulas de História da Moda, aliás!). Vale lembrar que, neste período a moda não mudava TÃO loucamente rápido como agora, ok?

Emma Bovary, portanto, viveu a transição do estilo romântico (mangas presunto imensas, decotes canoa que deixavam os ombros caídos, ar frágil) e a década seguinte, onde o fortalecimento da classe burguesa na Inglaterra e na França levou a uma maior sofisticação na moda e ornamentação na roupa feminina.

Achei muitas imagens, mas travei uma guerra aqui: seriam suas roupas mais escuras (porque austeras e simples) no início e mais claras quanto mais dramática, romantizada sua vida ia ficando? Ou o contrário? Voltei ao livro para procurar pistas e Flaubert cita uma capa de viagem preta e pensando também no lado sombrio do romantismo, então fiquei com a segunda opção. Como Emma, no início da história, é uma mulher mais contida em seus impulsos consumistas, imagino que pudesse usar roupas mais simples, para o dia  (vestidos de 1843 a 1850, do acervo do MET):

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A partir da década de 50 deste século, como disse a burguesia se destaca e o seu poder de consumo aumenta, mesmo a pequena burguesia. Emma se deslumbra e quer sempre o melhor, almeja as novidades que vêm de Paris. Uma das principais características da moda dessa época é o uso da crinolina: anágua de tecido engomado feito de fibra de pelo de cavalo sobre uma gaiola, que dava um volume imenso à saia. Como ilustra a imagem abaixo, que é de 1860, mas ilustra bem o auge do volume das saias (a mulher foi aprisionada no espartilho e numa jaula – literalmente!)

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E uma cage de 1856:

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Provavelmente, apesar de não ser muito preocupada com dinheiro, Bovary não tivesse bala na agulha, d’argent, para tamanha extravagância (da primeira foto). Mas podemos pensar em vestidos mais sofisticados para a metade do livro em diante. Investia em tecidos mais nobres como veludo, tafetá, cetim, mousseline, mandava trazer rendas e acessórios:

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Esse seria bem propício para Emma (do comportado ao mais “livre”):

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Já para suas viagens, que tal:

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Completando, o traje de andar de cavalo que também é mencionado:

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Além dos vestidos, fiquei imaginando como traduzir os badós, tradução brasileira para o penteado na moda da época: cabelo dividido ao meio, com volume na região das orelhas e preso em coque. Daí achei essa foto de 1850 que bem poderia ser de Emma:

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Todas as imagens de: OMG! That Dress e vestidos dos acevros dos museus MET e V&A

Flabeurt “inspired”, por Eça de Queirós

A cópia, no mundo das modinhas, ganhou um nome mais “chique”, o inspired, que em inglês quer dizer “inspirado”. Ou seja: ao invés de dizer que fulano copiou tal coisa, ele “se inspirou”. O que, no funnnndo, não é uma mentira porque nada se inventa, tudo se transforma e, para se transformar uma coisa já existente em nova, tem que se inspirar na antiga. Confuso?

Bom, a verdade é que existem coisas que são MUITO inspiradas nas outras, concordam? Mas isso não é exclusividade da Moda, como se os estilistas, dentro do grupo de outras funções criativas como músicos, artistas plásticos, etc; fossem menos dignos que esses colegas. Não, minha gente, existe obra “inspired” por todo o canto.

Como os críticos literários dizem que é a obra do português Eça de QueirósO Primo Basílioque, segundo essas análises, foi fortemente influenciada pelo romance do francês Gustave Flaubert, Madame Bovary (outro romance na mesma linha é Anna Karenina, do Tolstoi). Nunca li o romance português e estou lendo o francês agora, por isso não posso comparar. Mas, de fato, pelo pouco que sei da obra de Eça, os livros têm temática parecida, uma forma de crítica ao amor romântico idealizado. Aliás, um parênteses: estou AMANDO Madame Bovary, é um livro muito atual e cheio de insights geniais sobre consumo (estou lendo por causa do Mestrado) e, quando acabar, quero escrever sobre ele.

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Mas, voltando à história das cópias, estava lendo há algum tempo, lá pela metade do livro, quando Flaubert diz que Emma Bovary, a nossa protagonista, pensa o seguinte:

“Era a primeira vez que Emma ouvia dizerem-lhe aquelas coisas, e seu orgulho, como alguém que relaxa em uma estufa,  espreguiçava-se languidamente ao calor daquela linguagem.”

ORA, eu já tinha lido algo do tipo antes. Me veio logo à cabeça um trecho de Primo Basílio que ficou popular depois que Marisa Monte incluiu em Amor, I Love You. Resumindo:

“Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades e seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas como um corpo ressequido que se estira num banho tépido.”

Quem escreveu primeiro, quem copiou quem? Flaubert lançou o seu romance em 1857, enquanto Eça foi em 1878. Ou seja, a “inspiração” veio do coleguinha francês. Fiquei chocada com a informação. Precisava, querido Eça?

Mas ok, perdoo ele porque além da linguagem ser mais inspirada (talvez por problemas de tradução de Madame, que possa ter feito perder a magia de se ler no original), o resto do trecho é muito mais bonito do que o que está na história de Emma. Diz Eça:

“Sentia um acréscimo de estima por si mesma e parecia-lhe que entrava, enfim, numa existência superiormente interessante onde cada hora tinha seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase e a alma se cobra de um luxo  radioso de sensações.”

Na minha humilde opinião, muito mais poético que Flaubert. É, talvez eu seja tola e facilmente “caível” na pilha do amor romântico idealizado como as duas personagens, Emma e Luísa.

Mas enfim, era isso que queria comentar. Algumas “inspirações” chega à literalidade da cópia, mas isso não é exclusividade da Moda. No mais, estou de olho!

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